domingo, 25 de novembro de 2018

Cresci em uma sociedade...

Cresci em uma sociedade em que as pessoas competem umas com as outras. Mesmo não gostando de competir ou mesmo não querendo competir ou ainda não sentindo vontade de competir ou tendo preguiça de competir, acabei sendo levada, pelo fluxo do sistema, a competir. Juro que tentei, durante anos, me afeiçoar ao e me aperfeiçoar no jogo da competição. Em alguns momentos, tive sucesso em competir, mas, dentre os resultados, a maior parte do meu saldo era um nevoeiro de frustração, um coração manchado de raiva e um mar de ansiedade no qual, cada vez mais, eu me afogava. Um dia, em parte por influência de pessoas iluminadas que cruzaram por minha vida e também devido alguns livros que li, resolvi sair da ação e entrar no modo de observação do ato de competir. Fui tentando compreender esse jogo da competição e, à medida que eu ia observando e observando, ia descobrindo que, por traz da competição, (mesmo quando existiam “vitórias”) o saldo final era pessoas em sofrimento, pessoas eternamente insatisfeitas. Comecei a refletir por que cargas d’água competíamos cegamente. Fiz uma lista de hipóteses, entre as quais estão: a necessidade de viver desafios; a necessidade de ser amado e reconhecido a cada “vitória”; a necessidade de existir a partir de comparações; crenças de escassez e de falta de amor próprio.
Quando falo em crença de escassez, fico imaginando por que as pessoas insistem em apostar suas fichas de que para haver pessoas numa “boa” é preciso que haja pessoas numa “pior”. Que, para que alguém prospere, o “concorrente” precisa estar por baixo. Que, se não houver pobres, logicamente ricos não existirão. Por que, gente? Por que? Eu acho que nos ensinaram a ver o mundo de uma forma muito pequena e limitada mesmo. Porque eu vejo que, se eu tiver abundância, o outro também pode ter... se eu tiver prosperidade, naturalmente, vou gerar a prosperidade do outro e assim por diante. Se eu tiver dinheiro para comprar pão, vou ajudar na prosperidade do padeiro, e se o padeiro tiver dinheiro, vai comprar trigo para fazer seu pão, logo, vai ajudar na prosperidade do fornecedor de farinha e assim por diante. Pode parecer um pensamento ingênuo, porém a malícia nesse circuito idealizado está, em nossa realidade, na crença de que precisamos tirar vantagem sobre aqueles em nossa volta, na crença de que não podemos gastar tempo ajudando o próximo por estarmos com medo de perder tempo, de acabarmos como o bonzinho da história que é deixado para trás inclusive por aquele que foi ajudado. Isso porque acreditamos que é impossível que todos tenham uma vida honesta e confortável, fomos criados numa realidade limitada e limitante em que o salto sobre o abismo entre a riqueza e a pobreza deve ser executado, não importando as consequências. Então, tendo isso em mente, por que continuar competindo com o outro se a gente pode viver numa interconexão de cooperação? Ah, mas o outro tem a mesma profissão que a minha. E daí? Ninguém faz o mesmo trabalho que outra pessoa. Ninguém tem uma linha absoluta de pensamento e capacidade cognitiva, sensitiva e emocional exatamente igual ao outro. Naturalmente somos diferentes e graças ao Universo é essa diferença que fez com que a humanidade sobrevivesse a muitas catástrofes.
Eu adoro poder ver meus colegas de profissão fazendo coisas maravilhosas e fico feliz por eles. E não, não estou pagando de boa menina ou sendo hipócrita. Eu gosto muito de ver pessoas fazendo coisas que me inspiram e me fazem admirá-las. E eu não tenho medo que elas sejam melhores que eu... isso porque tenho aprendido a me amar e a entender que cada pessoinha desse mundo é um universo incrível e diferente. Tenho dormido em paz por ser assim, mesmo muita gente acreditando que sou uma abobada ou ingênua por pensar assim. Quer saber? Que pensem. Cansei de alimentar ódio, cansei de brigar com fantasmas e competir com projeções. Ultimamente, tenho aprendido a vibrar no amor, a ver o lado bom que o mundo tem mesmo em meio a tanto desastres. Tenho aprendido cada vez mais me acolher e a ser melhor para mim e por mim mesma sem precisar competir com ninguém. Tenho aprendido que é bom ajudar os outros e reconhecer os talentos e habilidades de cada um. Ultimamente, tenho aprendido muito (sei que o caminho ainda é longo, mas estou aprendendo) a ser humana.

(Michelle C. Buss)


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Evoé
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domingo, 18 de novembro de 2018

Quando se ama...

Quando se ama, só se ama. Não julga a cor da pele, não julga a orientação, não julga a origem, não julga a classe social, não julga o poder econômico, não julga se é diferente, não julga se a pessoa pensa diferente, não julga pela pessoa simplesmente ser. Amor não julga. Amor acolhe, amor compreende. Não existem rótulos para o amor porque o amor simplesmente é e amor tem espaço para todos.

(Michelle C. Buss)



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Evoé
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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

E tenho aprendido...

E tenho aprendido que as maiores riquezas são a paz e o amor. E que a paz e o amor nascem do exercício diário: curar as dores, os medos, os julgamentos, os preconceitos, o ódio, olhar para dentro e cuidar de si. Não é um exercício fácil esse, confesso, mas pelo resultado vale a pena. É bom demais sentir o peito todo em amor e os pensamentos em paz.

(Michelle C. Buss)


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Evoé
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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Quanto mais...

Quanto mais ódio as pessoas me direcionam, mais no meu coração bate amor. A todo aquele que me entrega ódio, eu entrego a ele mais amor; porque quem odeia alguém é porque está em sofrimento e somente o amor é capaz de curar um coração que chora. Somente o amor é capaz de transformar o ódio em paz. Somente o amor é luz na escuridão da inconsciência.

(Michelle C. Buss)




 .
Evoé
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domingo, 11 de novembro de 2018

Catarse do livro "não nos ensinaram a amar ser mulher"


Um sonho quando é idealizado sozinho já é muito poderoso, imagina quando esse sonho é coletivo?
É com muita emoção (e friozinho na barriga também) que convido a todos vocês a participarem dessa campanha!
"não nos ensinaram a amar ser mulher" é meu terceiro livro de poesia e tem como tema as questões do feminino e da condição da mulher. Foi um livro elaborado com muita dedicação e carinho. E graças a várias parcerias com amigos e novos colaboradores que surgiram em nosso caminho durante os últimos meses, o livro tem previsão de publicação pela Editora Bestiário no início de dezembro e traz em sua capa uma pintura do artista Patrick Rigon.
Gratidão desde já a todos que estão viabilizando a concretização desse livro. Gratidão especial à Clara Állyegra Lyra Petter que preparou os textos e a Daniela Fischer Fonseca pela produção da campanha.


E participem da materialização desse sonho. Desse livro que não é só meu, é de todos nós.



. Evoé!.

sexta-feira, 9 de março de 2018

GENESIS ou RITUAIS DE NASCIMENTO



1. com trinta e sete semanas a caminho do hospital

antes mesmo do primeiro choro
do parto

ainda no ultrassom do quarto
mês
o resultado disse:
       será Mulher

mal eu sabia o que era
Mulher
a que condição eu seria imposta
mal eu sabia a que contrato invisível eu assinava
quando o exame disse que eu era Mulher.

no ninho de músculos do útero
de minha mãe
como eu poderia imaginar
toda violência trançada a sangue
na palavra Mulher?

Mulher
e eu carregaria todas as correntes de medos e gemidos
de minha mãe, minha avó, de todas a Mulheres que me fizeram
e da primeira Mulher, a primordial, de minha ancestralidade

2. hiperventilação

estava tatuado em meu gênero,
na genética do meu segundo cromossomo x
                   violência doméstica
                   violência no trabalho
                   violência no trânsito
                   violência na gravidez
                   violência na história da humanidade
                   violência na amamentação
                   violência na tpm
                   violência na menstruação
                   violência na rua
                   violência na terceira idade

3. “pra fazer não dói, agora para sair vai doer”

Mulher
e a sombra da palavra crescia
         violada
         o corpo violado
         os desejos violados
         a maternidade violada
         o útero violado
         o coração violado
    violência física
    violência emocional
                   violência mental
                   violência espiritual

“não importa o quanto você seja boa...”
“você é só uma mulher...”
“que frescura, bem coisa de mulherzinha...”
“tinha que ser mulher!”
“para de fazer drama, deixa de ser mulher!”

4. as contrações dilatam a madrugada

antes que eu nascesse
a sociedade já tirava
meu sentir
tirava meu direito às cólicas
à sensibilidade lunar

a sociedade me impunha
mulher = artigo de objetificação masculina.
             peitos, bundas.
  de preferência, mansa.
não tão inteligente.
também não tão burra.
se estragar pode dar
uma dose de rivotril.
se não funcionar
o indicado é jogar fora
e comprar outra.
pagamento em qualquer
palavra de afeto e sem juros.

5. “respira, para de gritar, respira”

dizem que as fúrias não existem
mais
mas só mudaram o aspecto e o
nome
fúrias em chamas

ai de mim, que vivo uma antiga tragédia grega
em pleno século XXI.

nasci Mulher
e com isso veio o medo
de sair na rua
os bons costumes femininos de muitas avós:
a passividade e o conformismo
a cantada nojenta dos pedreiros
dos motoristas do cara que grudou o olho
na minha bunda quando passei por ele

nasci Mulher
e era um contrato
         boa esposa
         boa mãe
         boa de cama
         boa em não reclamar
         boa em ficar calada
         boa em se apagar
         boa em não chorar
         boa em só sorrir

uma máquina perfeita para servir

nasci Mulher
inconsciente de minha
existência

trabalhando mais ou melhor
e ganhando menos por não
não ter um pênis, mas uma vagina

6. “se ficar gritando, vai fazer mal para seu neném”

nasci Mulher
e me ensinaram
a competir com outras Mulheres
minhas irmãs

a mais bonita
a mais inteligente
não seja superficial
combina direitinho essas cores?
deixa crescer esse cabelo
que vestido horrível
isso é roupa que uma Mulher use?
fale algo que preste
você ainda não tem namorado?
ele te traiu porque você merecia
cuidado que exigente assim vai
acabar ficando pra titia
tá muito velha pra escolher
como você tá gorda
tá magra demais
ser melhor que fulana
falar mal da ciclana
mas a ciclana até que está bonita
por que não gosto dela?
me disseram
que Mulher é tudo falsa mesmo
que Mulher não se arruma
pra os homens, se arruma pra outras Mulheres

quem disse isso?

7. “cadê o pai? não veio acompanhar?”

nasci Mulher
e o calendário mensal
me fez odiar essa palavra

não me ensinaram me amar mulher

e toda vez eu chorava
sangue era motivo de
rejeição
humilhação
incompreensão
do meu pai, do meu irmão,
do marido, do gerente

toma pílula para parar de
sangrar
eu sangro choro por dentro
é bom tomar mesmo, viu
assim não inventa de engravidar

se engravida sozinha?
uma Mulher engravidar é crime?

meu deus
porque tenho que pedir
ajuda pra um deus que
justamente é homem?
por que não minha deusa?
onde foi parar a parte
feminina de deus?

ai, minha deusa...

freud diz que explica...
me faz sentir culpada
revolta:
quem disse que meu
problema é não ter um pau
quando eu tenho algo muito melhor?

pandora do desejo

8. a força. o grito. um corpo saindo de outro

objeto não sente
objeto não quer
objeto é apenas para uso

por que isso, mundo?

até a língua é machista
numa sala de meninas
e só um menino
todas elas viram “todos”
por que o menino não aceita ser “todas”?
por que todas as meninas aceitam ser “todos”?

jung disse que todo homem
tem uma Mulher
interior
e toda Mulher tem um
homem si

mas pelo jeito que nos tratam
essa Mulher deve ser
a maior prisioneira da história da humanidade

e reclamam que eu luto
mas homem nenhum é capaz
de compreender o peso
da condição que me fizeram carregar

já tive raiva
já tive ódio por ser Mulher
(próxima encarnação, tomara que eu nasça homem)

9. um choro de bebê: “é uma menina”

pouco parei para pensar
observar
o micro-macro-micro e outra vez
macro-cosmo que existe em
mim
Mulher universo em constante
expansão
princípio das noites que gesta o dia
lei das renovações

não me ensinaram a
gostar de ser Mulher

acordem Mulheres
despertem todas

sintam como é bom ser
o que somos
retomem a sabedoria do sentir
consagrem a si o seu poder

mergulhemos no mar dos despertos

acolhimento consigo
acolhimento com a ignorância do outro
aceitar nunca
fazer diferente
ser diferente
livre para ser
           
renascer diferente
         livre
         livre
         nascer
         Mulher


(Michelle C. Buss)


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Evoé
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