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sábado, 31 de maio de 2014

Nota de viver

a utilidade da poesia é igual
a de uma nuvem alaranjada,
a de um tapete de folhas mortas
deixando o outono mais outono.
são coisas que brotam alegria pro mundo,
que fazem azul nossa alma ilhada.
se é pra existir seja por isso:
o espantamento que mora no simples,
a canção que os olhos escutam.

(Silvério B.)

domingo, 27 de abril de 2014

ir embora

não daqui ou dali
ir embora de sentir 
e de ontem 
e de amanhã 
e de hoje também se der no jeito 
e de estar por dentro de qualquer lugar 
inclusive de si 
aliás 
ir embora sim 
daqui ou dali 

que tem hora que a dor 
de cabeça é tanta 
que eu chego a sentir um formigueiro por trás do olho 
que tem hora que se vê que até o céu imóvel 
tem estrada na frente dele
e que cai suor e mais suor da cara 
e no chão brota nada com nada
que tem hora que eu vou me sumir
pra dentro desses matagal 
que eu vou procurar o capataz pra bater nele 
com um capim seco 
que eu vou chamar todo mundo pelo nome 
porque o senhor mora é lá no céu 
que eu vou me chamar Quilombo dos Palmares de nenhum lugar 
que tem hora que eu vou 
é morrer tentando

(Silvério B.)

quinta-feira, 20 de março de 2014

LiBai

Seu LiBai morava tão na esquina ali de casa
que de tanto tanto tanto olhar a esquina e ver seu LiBai
pra mim esquina era anagrama de LiBai.
Saí numa manhã com o sol amornado de azul, cumprimentei seu LiBai
e foi a esquina que respondeu,
o seu LiBai de antes ficou estendido no sol, fazendo silêncio
e deixando que uma nuvem tapasse o silêncio
e depois destapasse outra vez.
Me disseram que o seu LiBai de antes saiu dizendo que agora que tinha perna
nunca mais queria ser esquina, queria agora
era ser estrada, uma estradinha de chão
onde desse pra ouvir um mar, um cusco e o andar das estações
antes delas entrar na cidade.
Sempre foi meio louco ele.

(Silvério Bittencourt)

Mais em: http://largentatus.blogspot.com.br/


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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

-

nada vê as estrelas iluminando
minha coroa de
horas úteis semanais
minha coroa de
contracheques precisamente calculados
minha coroa de
o troco do lanche de ontem
minha coroa de
horas marcadas pra cuidar da saúde
minha coroa de
quilômetros atrás dos meus sonhos
minha coroa de
4700 substâncias nocivas
minha coroa de
ele é legal mas tem alguma coisa
assim não sei: sei lá
minha coroa de
a gente tem que variar as roupas
de vez em quando
minha coroa de
todo mundo faz coisas que
não gosta
minha coroa de
isso é pra quem pode e não pra
quem quer
minha coroa de
diazepam não faz o efeito
que eu quero
minha coroa de
páginas de autoajuda cristã digeridas
pelo estômago
minha coroa de
faculdade de história ou psicologia
minha coroa de
é estúpido morar numa caverna
minha coroa de
que bonitinho ele escreve poemas
minha coroa de
vê se aprende a conviver com
as pessoas
minha coroa de
aquela estrela já morreu

é bem nada vê mesmo melhor
iluminar uma coroa de
espinhos

(Silvério Bittencourt)


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quinta-feira, 28 de junho de 2012

aleijando-se

afinal
não ter uma doença
que faça cair meus dedos
atrofiar meus ossos perder
meus dentes que me faça
deixar de sair ao dia que me
provoque febre e desconforto
físico constante pode ser
um problema não ter uma
doença que me faça escrever
coberto e protegido por uma
espécie de tenda pode ser
um problemão aqui do meu
ponto de vista século XXI
não sei quanto a Minas no
período colonial
se não fosse isso seria aquilo
e as estátuas de pedra teriam
o mesmo rosto de pedra a
opção se resume a abrir ou não
os olhos no caminho do
abatedouro 


(Silvério Bittencourt)







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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Digamos

Digamos
que existam certos
deveres inadiáveis
haverá o cadarço desamarrado
no meio dos deveres
no qual devemos tropeçar
e cair de bruços
e assim aprender
com a peregrinação
de formigas vermelhas

e é preciso manter-se no chão
não há rosto humano
capaz de pagar
uma dor contida
com magnanimidade
alguns olhares sem febre
a nos encarar de frente


(Silvério Bittencourt)


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