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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Sobre as metamorfoses e A Metamorfose



Pelo desígnio dos deuses ou pela estrela de seu destino o homem se transforma em animal, em planta ou objeto. Mas esse animal, planta ou objeto portará consigo para sempre um elemento diferenciador: um traço de humanidade calado.
Inúmeras obras abordam o tema metamorfose na literatura de diversas partes do mundo. Nos mitos de criação de diferentes culturas, vemos a presença do processo de metamorfose servindo à finalidade de explicar a origem de algo ou de educar a respeito de um assunto. De acordo com Bakthin (1993, p. 235), “a metamorfose (transformação) – basicamente, transformação humana – junto com a identidade (basicamente, também, identidade do homem) pertence ao acervo do folclore mundial pré-clássico”. 
 A palavra metamorfose tem sua origem no grego (“μεταμόρφωσις” - “metamórṗhosis”), em que “meta” designa “mudança, posteridade” e “morfose” tem raiz em “morfe” que significa “forma”, segundo Coutinho (2011, p. 179). O termo é também utilizado pela Biologia para intitular o processo de transformação que alguns animais sofrem de um estágio de seu crescimento a outro.
O usa da palavra metamorfose nos remete à literatura grega. Através de Homero, em Odisseia, vemos os companheiros de Ulisses sofrerem metamorfose provocada por Circe, que os transforma em porcos, nesse caso, possível de ser revertida devido à astúcia de Ulisses, com a ajuda de Hermes, ao enganar a feiticeira. Em Ovídio, em sua obra Metamorfoses, somos expostos a diversos textos em que personagens sofrem o processo de transformação, como é o caso de Aracne, exímia tecelã que, após desafiar a deusa Palas Atena, é metamorfoseada em aranha. Também, Píramo e Tisbe, a causa de seu infortuno destino, por piedade dos deuses, são transformados em amoreira.
O processo de metamorfose pode ou não ser revertido, pode ser instrumento divino para obter algo (como é caso de Zeus que se transforma em chuva de ouro para se unir a Danae), e, em grande número dos casos, é um castigo, geralmente da ordem do divino, devido a alguma transgressão.
Em “Sonhos de uma noite de verão”, do dramaturgo William Shakespeare, a metamorfose surge como um castigo à rebeldia de Titânia, que não quer entregar a Oberon o menino que está sob seus cuidados. Oberon, representando o demiurgo da peça, então ordena que Bute derrame nos olhos de Titânia adormecida uma poção que a fará se apaixonar pelo primeiro ser que olhar. No meio do percurso, Bute, em uma de suas peraltices, transforma a cabeça de um dos atores que ensaiava nas proximidades na de um burro e logo o encaminha a Titânia, que, enfeitiçada, apaixona-se perdidamente. Assim que o feitiço é desfeito, o ator volta a sua forma original e Titânia recobra a consciência. Dessa forma, a metamorfose, nessa peça de Shakespeare, é imbuída pelo elemento cômico, diferente das citadas em Homero e Ovídio.
 A obra “A metamorfose”, novela de Franz Kafka, escrita em 1912, tecida com fios do Surrealismo e traços do Expressionismo e que construiu as bases do Realismo Mágico, deparamo-nos com a temática da metamorfose.  Diferente das histórias de Homero, Ovídio e Shakespeare, nas quais vemos o processo de metamorfose acontecer, temos a ciência de seus motivos e seus desenrolares ocorrem entre o meio e o final do texto, a obra de Kafka subverte esse modelo. A narrativa altera a ordem usual ao começar pelo clímax, com a transformação do personagem Gregor Samsa em um inseto já efetivada. Não sabemos como isso aconteceu ao personagem, apenas que é um fato irreversível. Gregor, no início da trama, ainda traz consigo sua consciência de humano, já que está ciente do ocorrido e, ao longo do enredo, preocupa-se com a irmã, a família e seu emprego. Entretanto, essa consciência vai se desvanecendo cada vez mais, até sumirem os últimos resquícios de sua humanidade.
Outra questão a se destacar é que Gregor, apesar da estranheza inicial, não se preocupa em questionar sobre sua transformação ou sobre um modo de voltar à sua forma original, como se o inseto já estivesse internalizado nele antes mesmo da efetivação da mudança de forma. Uma situação interessante na sua metamorfose é que, de certa forma, esta reage à interação da família com Gregor. No início a família estranha (Gregor ainda está conectado à sua consciência humana e vive a rejeição dos familiares), depois, tenta aceitar a transformação (Gregor se preocupa com a situação da família), por fim, o excluí e renega (o inseto, aos poucos, vai se tornando mais forte que o humano que está abalado psicologicamente). Essa mesma questão da interação entre alguém e o metamorfoseado afetar na metamorfose pode ser vista no poema A Rosa do Mato, de Antônio Dinis – Araciba, transformada em flor, muda a matiz de suas pétalas na presença do amado.
Quanto à razão da mutação de Gregor, sabemos que não é um castigo da ordem do divino. Diferente dos exemplos de metamorfose citados anteriormente, em Kafka não existe uma interferência do divino atuando no processo de metamorfose, ela simplesmente acontece. Além disso, Gregor está mais preocupado com questões da ordem do cotidiano do que com a própria metamorfose, ele se posiciona como um misto entre humano e inseto, mantém a consciência e é capaz de perceber as diferenças que operam em seu corpo a ponto de até estabelecer paralelos entre o antes e o agora. Assim, podemos constatar que tanto o narrador quanto o próprio Gregor tratam a metamorfose como algo que beira o insignificante.
Em uma análise mais densa da história, podemos entender a metamorfose como um símbolo do indivíduo ou mesmo da sociedade que se entrega ao sistema de um capitalismo extremo do contexto da época, mesmo que para isso exerça uma profissão ou posição que não traga realizações pessoais. Nesse caso, o inseto monstruoso e nojento já está instalado na interioridade do indivíduo. Entretanto, por outro viés, somente após a transformação de Gregor vemos que ele é liberto de suas obrigações familiares e do trabalho. A transformação de Gregor pode ser vista também como um ato de subversão ao sistema – com o que podemos traçar um paralelo em ralação à arte, que subverte o sistema em vez de o alimentar. Essa arte causa por vezes repulsa e estranheza, mas traz em suas estranhas um potencial reflexivo e diferentes horizontes de expectativas.
Por fim, também podemos refletir que o processo de metamorfose em Kafka evoca a ideia de migrações e do estrangeiro. Há a migração de posição na vida familiar, antes e depois da metamorfose. Gregor antes da transformação é essencial para família, em seguida seu papel é visto somente como uma obrigação e, ao final, após a transformação, é rejeitado. Essa migração de posição por causa da migração de forma torna Gregor um estrangeiro no próprio lar. A metamorfose o afasta de sua humanidade, rompe seus laços e sua importância, a família já não o reconhece mais, o ambiente se torna inóspito e desconhecido à medida que os sentidos do inseto se sobrepõem ao que resta do humano. Finalmente, resta o profundo sentimento de solidão e exclusão, sensações que são geralmente vivenciadas pelo estrangeiro, um ser que habita o “entre lugares”.
Pela ação dos deuses ou por um fado do destino, o humano se transmuta em animal, em planta ou objeto. Mesmo que o tempo insista em apagar, e mesmo que a nova natureza o tome e não exista formas de voltar ao que se era, um traço de humanidade em resistência permanece.  



Autora: Michelle C. Buss 
Programa de Pós-Graduação da Letras da UFRGS
Disciplina: Formas Literárias e Processo Histórico – Prosa 
Trabalho: Ensaio sobre interpretação da metamorfose em Kafka


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Evoé
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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O amor acaba

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. 

 (Paulo Mendes Campos)

Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro. 


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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Arte

Arte. Conforme ouve-se em relatos populares, ela realmente tem vida própria. O que ninguém sabe é que ela é muito maior do que se imaginava. E, todavia, do contrário do que se concebia, ela está na parte branca da folha. Sim. Não é no bico da caneta, riscos, pautas, réguas, grafite, tintas... Estes são reles filtros de passagem da verdadeira Arte Branca, que vem vertendo infinita e incontrolável pelas janelas do papel.
Vem como um assovio na boca de um garotinho aprendendo a assoviar, furtando o vento entre seus lábios, roubando do alvo ruído uma canção.
E não adianta riscar toda folha, em algum lugar ela sempre estará. Não adianta amassar. Jogar no lixo. Não adianta esconder-se da brancura da folha como escondeu de tua maturidade o medo do escuro que tiveste quando criança. Dê-me uma folha em branco e "entenderás porque temeste tanto a escuridão". Então, aprenderás também a "amar as tempestades, ao invés de fugir delas" e que entre o céu, o Tempo, a Morte e a Terra, existem muito mais coisas que nossa vã filosofia concebe. E ainda sim, caberão todas na folha sempre branca que me nasceu pregada aos olhos.
A vejo feminina e imaculada. Dá-me uma folha em branco e entregarás a chuva de volta para as nuvens, o ruído rosa de volta ao relâmpago.
Esse é meu ofício, meu habitat, está é minha noite branca.


(Alberto Ritter Tusi)



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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Amor

Ela pediu, manhosa, a ele: "Prova que me ama?". E ele permaneceu em silêncio por alguns segundos até soltar essas palavras: "Seria muito fácil se o amor fosse como uma ciência exata e tivessem fórmulas para comprovar sua existência. Ou se fosse uma mágica que a gente pratica e mostra a todos. Eu bem que queria também abrir o meu peito e mostrar para você o amor iluminando o meu coração. Isso, entretanto, não é possível. Também queria que funcionasse através de comandos assim: você me pediria "faça uma tatuagem com meu nome", eu vou lá e faço; "me dá um presente tal", eu vou lá e dou; "cante uma música na frente de mil pessoas", eu vou lá e canto. Isso, mais uma vez, não seria amor, seria obediência. E cá entre nós, amor não é obediência. O que talvez poderíamos comparar com o amor é a fé, porque você precisa confiar em mim. Você me ama ,ou não me ama. Você crê em mim ou não crê. Eu digo que te amo e espero que você confie em mim. Porque se não confiar, isso não é amor o que você sente. Além de fé, podemos comparar o amor a uma luta incessante. A todo o momento temos que estar do lado da pessoa amada, quando ela precisar da gente, procurar a palavra certa a cada momento, fazer carinho se a pessoa gosta de carinho, falar que ama, quando a outra estiver carente, etc. Além disso, o amor exige paciência. Entender a outra pessoa. Se colocar na pele dela. De vez em quando, brigar por ciúmes. E depois pedir desculpas. Sentir vergonha quando for conhecer a família da amada. Isso tudo é amor. Ter paciência de passar por todas essas situações. Você me perguntava há alguns minutos se eu posso te provar que te amo? Então te digo, que te amo e espero que confie em mim. Se não confia, tenho que lutar por essa confiança. Conquistá-la, porque se você me pergunta isso, é porque ainda não conquistei o seu amor.


(Eduardo Nagai)


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sábado, 5 de novembro de 2011

Relacionamentos

Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim. Como tudo na vida.

Detesto quando escuto aquela conversa:
- Ah, terminei o namoro...
- Nossa, estavam juntos há tanto tempo...
- Cinco anos.... que pena... acabou...
- é... não deu certo...

Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida, é que você pode ter vários amores.

Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro?
E não temos essa coisa completa.

Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível.
Tudo junto, não vamos encontrar.

Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro. Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia.

E às vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...
Acho que o beijo é importante... e se o beijo bate... se joga... se não bate... mais um Martini, por favor... e vá dar uma volta.

Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra. O outro tem o direito de não te querer.

Não brigue, não ligue, não dê pití. Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar... ou não.

Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto.

Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Nada de drama.
Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?

O legal é alguém que está com você, só por você. E vice-versa. Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão. Nascemos sós. Morremos sós.

Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado. E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.

Tem gente que pula de um romance para o outro. Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?

Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração... Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.

E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse... A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.

Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta. Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível.

Na vida e no amor, não temos garantias.
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear.
E nem todo sexo bom é para descartar... ou se apaixonar... ou se culpar...

Enfim...quem disse que ser adulto é fácil ????
 

(Arnaldo Jabor)



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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Fofura Tem Preço


"Que bonitinha, que fofa! Mamãe, deixa eu levá-la para casa" e a progenitora cede aos apelos da filhinha, sem pensar muito nas consequências. Resultado: abandono posterior. Essa constância de comportamento é corriqueira, todo mundo conhece um primo do amigo do conhecido que já cometeu esse tipo de atrocidade. O que pouco se fala, que mal se vê, todavia está embutido no cerne do problema é a falta de discernimento na hora da adoção animal.
Posse responsável é o que qualquer pessoa que adota um cão deve ter claro na cabeça. Ressaltaremos alguns itens da cartilha do adotante de ouro. Um cachorro vive bastante, de 15 a 20 anos, com diversas fases: infância, choros de madrugada, roeção de chinelo; juventude, energia saindo pelas ventas; velhice, alteração do metabolismo e doenças senis. A nutrição deve ser adequada, ração é o ideal, atentando-se para as de boa e de má qualidade, água é "open bar", à vontade. Atenção à higiene do animal, banhos e tosas, e do local, afinal seu animal de estimação não é um porco. A Prevenção de Doenças é fundamental, as famigeradas vacinas que defendem o sistema imunológico do bichinho. A Castração é primordial, um animal nessas condições vive mais, já que suas chances de desenvolver infecções e câncer no seu aparelho genital são menores. Além de ficarem mais mansos, menos ansiosos no período do cio. Eles não irão engordar, nem eles nem vocês, se vocês mantiverem seus hábitos saudáveis. De acordo com pesquisas recentes, cada casal de animal pode gerar ao fim de seis anos 67 mil descendentes. E depois quem leva a fama de viris são os coelhos e hamsters!
Esses sãos os principais mandamentos do adotante de ouro. Sem esquecer a determinação básica de alguém interessado em companhia canina para as próximas décadas: "Não Abandonarás!". Senão, situações como esta em que a cachorrinha da foto (abaixo) se meteu, não deixarão de acontecer. Abandonada, há dois meses elegeu um lugar para passar a maior parte do seu tempo, perambular por aí cansa. Ganhou a atenção dos moradores locais, comida, água e um pouco de carinho. Pouco para um ser tão dependente, ultimamente, perceberam que está a cada dia mais magra, de olhar cabisbaixo e muito calada. Fica ali na sarjeta, tremendo de frio, embaixo de chuva, muito assustada, porque por mais que tente se fazer despercebida, sempre tem um ou outro, que desprovidos de alma, atiram pedras na coitadinha.

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segunda-feira, 30 de maio de 2011

A VOLTA DO SENHOR

Há muito, muito tempo, estou preso em um lugar escuro e frio. Esse lugar é minha casa. Não tenho muita coisa a fazer. Passo dias, meses e milênios deitado em minha cama. Não passo fome nem sede; tenho aqui um suprimento de comida sem graça e de gosto entediante, e água parada e suja.
Ouço passos vindos do outro lado da parede. Não é ele. O som e a frequência das passadas não são os mesmos que eu conheço. Eu grito. Após algum tempo, o som para.
Sem algo para fazer, ando pela casa sem rumo. Estou com vontade de urinar. Vou ao banheiro. Volto à minha cama. O tédio é absoluto. Estou aqui há milhões de anos e aqui ficarei por toda a eternidade.
Não! A espera termina. Ele chegou! A porta se abre, as sacolas são depositadas no chão e as luzes são acesas. Com a felicidade, deixo escapar um grito. Meu senhor está de volta. O mundo é um lugar mais feliz. Nada mais pode dar errado, pois ele está aqui.
Pulo sobre ele, tentando lamber seu rosto. Ele me acaricia e me abraça, e meu rabo foge do controle; balança para lá e para cá, como se tivesse vida própria.
Meu senhor sai de perto de mim e fecha-se em seu próprio quarto. Estou à frente da porta há milhões de anos, e algum dia talvez essa porta se abra e meu senhor retorne. 


(Gabriel R. Borges)



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domingo, 1 de maio de 2011

Samuel sobe a árvore

Ninguém jamais conseguiu subir. A árvore mais alta da rua intimida os meninos de todo o bairro. Até a metade já subiram; um pouco mais, talvez. Mas lá em cima, onde os galhos são mais perigosos, ninguém. Muitos têm medo de cair, a maioria nem consegue imaginar o caminho até o topo; os galhos são confusos, a segurança é duvidosa. Mas, temos de admitir, é uma maravilha, é a coisa mais linda do mundo, é uma humilhação para todas as outras árvores da rua. Essa árvore é o sonho de todas as crianças que brincam por ali e se contentam com as árvores menores.
Samuel é uma dessas crianças. Nove anos, cabelos loiros, joelhos ralados, cicatrizes pelo corpo e uma coragem admirável. O Sol está se pondo, a noite logo deve chegar. A rua inteira é invadida por uma luz amarelada e um vento leve canta com as folhas. “Desce daí!”, alguns gritam, “Cuidado Samuel!”. As outras crianças parecem realmente preocupadas, mas ele não para. Samuel agarra cada galho com mãos firmes, avança pela árvore incansavelmente. As pessoas lá embaixo param para olhar; não apenas as crianças: pais, mães, avôs e avós, todos observam o menino corajoso. O corpo pequenino se confunde entre as folhas, mas movimentos esporádicos revelam sua presença. O pequeno Samuel não pensa em nada; nem mesmo sabe por que está subindo, apenas sobe. O caminho se torna cada vez mais claro, é óbvio, evidente. Samuel sente que já é parte da árvore, é natural para ele, o movimento de seus braços é quase involuntário, irrefletido. Samuel chega ao topo, não há mais o que subir.
Senta-se em um galho razoavelmente forte, cuida para manter o equilíbrio e olha para baixo. Samuel vê tudo o que percorreu logo abaixo de si, uma mistura de galhos, folhas, pássaros e quase consegue enxergar os olhos curiosos das pessoas por baixo de tudo isso. Respira fundo e olha para frente. O bairro inteiro se revela para Samuel. Todas as casas, todas as pessoas surgem à sua frente iluminados pelo Sol que vai sumindo no céu laranja. A cidade mais ao longe se esconde, mas ele pode enxergá-la. Ela está ali, assim como o resto do mundo, que é logo adiante. Alguns pássaros voam perto dele e, em segundos, já estão nesse horizonte. Samuel consegue ouvir a música. Todas as vozes vêm até ele. Falam coisas diferentes, gritam, choram, gozam! O mundo se rende para Samuel.
Como uma folha daquela árvore, ele faz parte de tudo isso. Muitos não o conhecem. O mundo não o conhece. Mas o mundo jamais existiria sem ele. O Sol finalmente some. A luz avermelhada dá lugar ao escuro da noite. Samuel vê as pequenas luzes da cidade surgindo. Vê o mundo inteiro tentando manter-se acordado. Samuel não sabe quantas pessoas estão por trás de cada um desses pontos de luz. Não sabe quem são elas, o que estão sentindo, mas tem certeza de que estão ali, assim como ele, na árvore. Samuel está cansado, seu corpo de criança dói. É hora de descer.


(Rafael Escobar)


Para mais textos, acesse: http://enfimquaseisso.blogspot.com/


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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Sobre a solidão

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo...
Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida...
Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma....


(Fátima Irene Pinto)



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sábado, 23 de abril de 2011

Arrefeição

Sento a mesa e busco a posição mais confortável na cadeira. Garfo na mão esquerda, faca na mão direita. E o prato vazio em frente! E o prato cheio em frente! Arroz, feijão, carne, salada e qualquer outra coisa! Não faz diferença! Não faz diferença!
E então mexe, remexe, finge que bota no garfo e depois tira de novo! Pica a carne em pedaços minúsculos e joga de lado. Mistura o feijão no arroz e enrola a folha de alface!Solta a folha de alface! Pega o tomate, corta e joga pro lado do prato! Recolocar! Reorganizar! Regurgitar!
I know the right words to say like "I don't feel well", "I ate befora i came!"
E então cortar, provar e sentir culpa! Mastigar com remorso! Muito osso e pouca carne! Pouca carne e muita pele! Pele seca! Olhos fundos! Unhas fracas! Corpo fraco! Mente fraca!
200 kcal! 150 kcal! 100 kcal! É muito! É demais! Demais! Demais! Precisar de menos! Menos que os 69kg! Menos que os 64kg! Menos, muito menos, muito menos. Clavículas, Bacias, Costelas! É pouco! Ainda é pouco! Culpa, culpa, culpa!
I'm tired and I'm right and I'm wrong and it's beautiful.
Porém, o estomago pede ajuda! O corpo precisa de ajuda! Comer! Comer pra curar a apatia! Comer pra curar a tontura! E a mente também manda comer! Comer pra ter energia! Comer pra ter esperança!
E então garfadas! Garfadas sem medo, sem culpa, sem remorso! Comer por liberdade! Comer por amor a si! Comer pra poder se entender e não pra, apenas, sobreviver! Refazer! Restaurar! Refeição!

(Eron Rafael Santos)