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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O Mestre dos Quebra-Cabeças



Betsy Carter é a autora de "Nothing to fall back on", que se tornou um best-seller. Em seu terceiro romance "O Mestre dos Quebra-Cabeças" é retratada a trajetória de Flora e suas irmãs que vão para os Estados Unidos fugindo da Alemanha Nazista, assim como a de Simon que quando criança foi mandado para NY pela família com a esperança de uma vida melhor. O livro conta a diversidade da vida do menino que sempre batalhou muito para poder se sustentar, uma vez que ele era uma criança sozinha. Simon consegue se tornar um empresário quando ele cria um jogo para ser vendido junto com lanches como brinde ele cria “o quebra cabeças”, Flora e Simon se casam, embora tenham uma vida agradável juntos, nas finanças, nem Simon nem Flora conseguem esquecer seus parentes e começam uma busca heroica para tentar salvar suas famílias. O livro não só conta a história de alguns judeus que sobrevivem à Alemanha Nazista, como mostra uma história com muita humanidade e a compaixão do casal por quem está sofrendo, descreve do ponto de vista dos judeus imigrantes dentro dos Estados Unidos o quanto eles sofrem os obstáculos que passam, mas sempre mostrando a coragem deles perante as adversidades. O que toca no livro também é o fato da história ter sido vivida pela família da autora, o que permite criar um laço com os personagens por sentir que são reais, assim como notar a riqueza de detalhes que ela coloca a personalidade. E também a pobreza de NY no início do século XX. Um livro que não só conta sobre personagens, mas que te faz viver os personagens, suas dores, seus anseios, sua fome, seu medo, sua saudade, um livro que mostra o potencial da escritora Betsy Carter.


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Evoé
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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sal, topázio e mercúrio, de Michelle C. Buss

Se fosse possível tematizar um livro de poemas, diria, sendo inevitavelmente vago e reticente, que Sal, topázio e mercúrio trata dos muitos aspectos que o olhar do poeta elege como primeiro plano. O olhar do vidente que transforma em imagem e ritmo as vivências orgânicas ou que é capaz de somatizar o turbilhão imaginativo; capacidades que fazem do poeta um pequeno deus, como escreveu Huidobro. Essa mistura de elementos já aparece representada no próprio título. Entretanto, podemos, também, usar a metáfora dos corpos – vegetais, animais – em que os diferentes órgãos com suas diferentes funções formam uma unidade assustadoramente harmônica. Seguindo esse raciocínio: este livro é um corpo pulsante.
Sal, topázio e mercúrio assimilou um muito da estética das ruas e estradas. Tanto do andar do sujeito no mundo de concreto, ferro e gente só, quanto do andar deste mesmo sujeito na dimensão dos astros, sonhos e sentimentos: três velhos moradores do estro da autora.
É impossível chegar ao último verso sem tocar, mesmo que ligeiramente, os caminhos da consciência, tipo quem contempla entre os dedos a terra onde anda pisando. Da mesma forma, acredito que este livro seja produto de uma erosão interna operada pelo passar dos dias; aqui uma senda mais densa do que aquela pela qual passamos ao ler o Mosaicos, primeiro livro da Michelle. O motivo é que a boa poesia se reinventa conforme os tempos mudam (me refiro ao tempo pelo olhar do poeta, que nem sempre – na verdade quase nunca – segue a lógica do tempo convencional).
Na leitura dos poemas, adianto que nenhuma palavra será alçada aos grandes pensamentos, descobrimentos e inovações. Sal, topázio e mercúrio é a forma mestiça dos sentimentos de todos. A imagem dos nossos pequenos infinitos. Às vezes, cravejados por refrãos, figurando epifanias diárias de todas as épocas como o verso “amanhã não chega nunca”, outras vezes o acontecer paralelo aos fatos, um acontecimento que não vê a luz do mundo a não ser através dos olhos da poesia, tipo o diálogo com um “você” que talvez nunca responda, de fato, à pergunta: “E agora amor?”, mas que assim mesmo entra num espaço sem-tempo por ter sido transformado pelas mãos da imaginação.
Um mundo íntimo desenhado por palavras transparece. O papel é apenas o veículo da poesia. A poesia de Sal, topázio e mercúrio é boa de se tocar e causa identidade imediata porque nós já a sentimos. Ela foi dita, aqui, da forma como é sentida.

A imagem da capa já está disponível (aquela lá no início do post) e o livro já se encontra no catálogo da Editora Patuá em pré-venda (entrega após o lançamento que ocorre agora em agosto).

Um dos poemas de Sal, topázio e mercúrio:

Quase verão
e o amor não veio.
Passei a noite em sonhos tortos
sentindo um frio solidão.
Nenhuma flor morreu
mas também nenhuma se abriu.
Deve ser mau tempo
ou algum inferno astrológico
que tenha espantado o amor...
Mas já não chove muito
e a lua já é mais cheia
e fantasmas de um passado
já não passam para tomar um chá.
Eu fico aqui contando estrelas,
constelando desejos,
diluindo horas de sono
enquanto me pergunto:
onde está você que ainda não veio?



Texto de Silvério Bittencourt.



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Evoé
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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

MiniContos e Muito Menos


 Escrito por Marcelo Spalding e pela Laís Chaffe, o livro “MiniContos e Muito Menos” é um livro composto apenas por contos, alguns realmente bem pequenos, o que acredito que fez levar a ideia de “minicontos”. Por ser dividido na metade ele têm duas capas, cada capa com um dos nomes dos autores e uma ilustração sobre algum dos seus textos. A ilustração foi feita pelo Alexandre Oliveira.
 O livro tem uma pegada de texto para fazer o leitor pensar com o simples, enxergar coisas grandes no cotidiano. Para ajudar essa leitura reflexiva e engraçada Alexandre ilustra muito bem alguns textos assim como eles, as ilustrações tendem a fazer o leitor pensar e rir ao mesmo tempo. É um livro pequeno, mas muito bem trabalhado.
 Não é o tipo de livro que te obriga a ler do início ao fim, pode abrir, ler um conto, pensar sobre ele e continuar o dia. Porém alguns contos têm continuações independentes, então se ler todos fará um sentido maior, mesmo não perdendo o sentido sozinho.
 “MiniContos e Muito Menos” é divertido, reflexivo, organizado, bem ilustrado, que pode ser lido em apenas um dia até por leitores iniciantes. Ele leva o leitor para muito longe sem sair do lugar. O fato de usarem o cotidiano, histórias reais, para fazerem os contos, faz com que aproxime o leitor da escrita e do escritor criando uma ideia de amizade entre os dois, tudo valorizado mais pela arte dos desenhos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

: O vazio não é tão vazio assim. Há um intervalo de vazio no próprio vazio


(...) como um eco no vazio que não se esvai... Uma história que é tramada mas que não se pode ter clareza dos fatos, do ritmo e do rumo. Há somente um ruído, uma nuance de matiz que não se apaga, que se mantém acesa durante o curso do dia, não se dilui, vira memória. reticênciasentreparênteses é uma obra que provoca, que inspira, que nos joga em um cenário tecido de palavras e figuras que dialogam, que se confundem, que se confrontam... O texto instiga para a imagem, a imagem instiga para se revelar. Há um suspense que paira no ar no intervalo entre a poesia e a voz, que paira entre alguma história e suas inquietudes.
Em reticênciasentreparêntese, o estado das coisas se torna duvidoso. Às vezes tudo parece tão estável, tão palpável, mas aí, de repente, a palavra se torna fluída, envolta em indagações (seria possível tocar o invisível? [...] Talvez.). O jogo de luz e sombra engana os olhos. A palavra pode ter em sua geometria a matéria, mas seu conteúdo é tantas vezes sombrio, suspenso em um infinito. Nada acaba e nada começa, porque tudo é uma continuação, uma constante...  ....entretanto, é uma constante que se transforma, se reinventa, se reconhece.
O cotidiano, as ruas, a eletricidade, o metal, as lâmpadas... o concreto se faz presente e se mistura às paisagens interiores: as indagações, a ansiedade, passagens de tempo, repetições, esperanças. Leonardo MAthias nos transporta para esse espaço através das suas construções inteligentes e ousadas: palavra, imagens e intervalos que se reconhecem e reinventam, que se dialogam e se calam.
reticênciasentreparêntese é uma obra prima, um convite ao inusitado e ao atemporal
Mas...
antes de qualquer coisa...
...melhor mesmo é acender um cigarro, deixar que o desconexo das ideias tome forma, direção e sonoridade. Deixar tudo se assentar. Porque mais importante que a ação é a direção, mesmo que seja em direção ao vazio, um vazio não tão vazio, um vazio que guarda um pequeno universo nas reticênciasentreparêntese.


***
(...)
vazios volúveis
ocupam-se de seu ofício:

(...)
gestos tensionam coisas
quais, nem sempre, existem

(...)
e a vida é sonho:
viver, um ato egoísta
sobreviver, uma lei genética
***
(Leonardo MAthias)



Para saber mais sobre o autor e o livro reticênciasentreparêntese, acesse:

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terça-feira, 26 de agosto de 2014

A Educação Pela Pedra


João Cabral de Melo Neto, em 1966, ano em que foi publicado o livro A Educação Pela Pedra, já era conhecido por sua poética fortemente marcada pela racionalidade, concretude e rigor estrutural. Nesta obra, Cabral sintetiza sua trajetória que passou por uma tendência surrealista com seu livro de estreia Pedra do Sono, até o regionalismo de Morte e Vida Severina.

A composição do livro tem, digamos, características matemáticas. Só para citar algumas:
-  Totaliza 48 poemas que estão divididos em quatro partes iguais contendo 12 poemas cada;
- Todos os poemas são compostos por duas estrofes que, embora não sigam uma métrica fixa, dão uma impressão de uniformidade;
- As quatro partes do livro são nomeadas pelas letras: a, A, b, B; sendo que as minúsculas são formadas por poemas de 16 versos e as maiúsculas por poemas de 24 versos. Também os temas dos poemas são condicionados às letras.

Em A Educação Pela Pedra,  a linguagem é seca, avessa ao sentimentalismo, à adjetivação que venha a tornar o poema menos concreto. É o aprender pela pedra: pelo exato, compacto, aparentemente vazio de poesia. Esta didática é descrita, em pormenores, num dos poemas do livro que, não por acaso, também leva o nome de A Educação Pela Pedra:

A Educação Pela Pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.


Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.


Outro dos grandes poemas do livro é Os Vazios do homem. Aqui Cabral consegue dar sua lição (sem prejuízo do lirismo e das características que constroem o livro) realizando uma reflexão sobre o interior do homem. Prova que ele aprendeu muito bem antes de ensinar.

Os Vazios do Homem
Os vazios do homem não sentem ao nada
do vazio qualquer: do do casaco vazio,
do da saca vazia (que não ficam de pé
quando vazios, ou o homem com vazios);
os vazios do homem sentem a um cheio
de uma coisa que inchasse já inchada;
ou ao que deve sentir, quando cheia,
uma saca: todavia não, qualquer saca.
Os vazios do homem, esse vazio cheio,
não sentem ao que uma saca de tijolos,
uma saca de rebites; nem têm o pulso
que bate numa de sementes, de ovos.

Os vazios do homem, ainda que sintam
a uma plenitude (gora mas presença)
contêm nadas, contêm apenas vazios:
o que a esponja, vazia quando plena;
incham do que a esponja, de ar vazio,
e dela copiam certamente a estrutura:
toda em grutas ou em gotas de vazio,
postas em cachos de bolha, de não-uva.
Esse cheio vazio sente ao que uma saca
mas cheia de esponjas cheias de vazio;
os vazios do homem ou o vazio inchado:
ou vazio que inchou por estar vazio.



domingo, 10 de agosto de 2014

O Livro Vermelho (Liber Novus)



Carl Gustav Jung, reconhecida figura a nível de cenário mundial, foi o criador da Psicologia Analítica, também conhecida como psicologia junguiana. Seu trabalho teve um amplo impacto além dos círculos profissionais: quando se pensa em psicologia os primeiros nomes que vem à tona são de Freud e Jung, tamanha a força que suas ideias tiveram e foram assim disseminada nas artes, no cinema, nas humanidades e cultura popular.
O Livro Vermelho de Jung, ou Liber Novus ("livro novo") é uma importante obra, a qual se manteve oculta por setenta anros, sendo apenas em 2009 trazida a público. Essa obra traz as vivências do psicoterapeuta, acompanhada de ilustrações produzidas pelo próprio Jung.
O livro inicia em dezembro de 1913, quando Jung tem uma visão enquanto viajava para visitar uma parente. A visão mostra uma Europa coberta por um mar de sangue, com milhares de cadáveres boiando, do norte até o sul A princípio, Jung acreditou estar sofrendo de uma grave crise psíquica, supondo que a visão era um prenúncio de uma doença mental. Pouco tempo depois na Europa eclode a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e então Jung pode compreender o sentido antecipatório da visão que tivera. As imagens que brotavam a partir daí em fluxo cauteloso em fantasias e sonhos falavam também de algo interno. Jung estava iniciando sua jornada interior, uma profunda transformação. 
O Livro Vermelho traz experiências vividas pelo psicoterapeuta, suas próprias Imaginações Ativas. Essa obra não é um simples relato de vida, mas a própria vida que tomou forma de palavra, uma busca pela verdade interior.


Para ver uma amostra do Livro Vermelho, basta acessar:


quarta-feira, 23 de julho de 2014

A Culpa é das Estrelas


A Culpa é das Estrelas é um romance de John Green. E apesar de muita gente criticar o livro porque virou cultura pop, bem eu li e gostei! Gostei pela escolha do tema, pelos diálogos inteligentes. Gostei porque emociona, porque toca, porque os personagens parecem que são vivos, ali transbordando de emoção. A linguagem é simples, tranquilo de ler, tanto que em três horas eu já havia lido tudo. Mas obviamente, não é só pela linguagem que se lê tão rápido, mas porque é bom. A trama é envolvente e faz você querer terminar. Faz você também repensar sobre muitas e muitas coisas, porque por mais bonita que seja a história, é bastante triste. John Green não tem medo de falar de tristeza e mostrar uma nuance desse tipo de realidade.
A Culpa é das Estrelas conta a história de dois adolescentes que se conhecem em um Grupo de Apoio para Crianças com Câncer. Hazel, tem apenas dezesseis anos e é uma sobrevivente que continua na luta, ela teve câncer na tireoide e como marca desse tratamento, desenvolveu metástase em seus pulmões. Augustus Waters, dezessete anos, perdeu a pena para o osteosarcoma. O livro trata da jornada dos dois, da luta contra o câncer, da descoberta do amor e das pequenas alegrias da vida. Nessa obra, John Green mostra sobre a alegria e a tragédia que é viver e amar.



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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Mosaicos, de Michelle C. Buss



Mosaicos, livro de poemas de Michelle C. Buss, idealizadora desse blog, muito dedicada estudante de Letras, poeta exemplar... oras, mas como assim poeta exemplar? Um poeta -- quando é poeta de verdade verdadeira, mesmo mesmo -- nunca escreve por hobby (no caso dos poetas escreventes, porque existem sim os poetas que pintam, os poetas que esculpem, que cantam, tocam etc. etc. Basta que não baste respirar pra ser poeta, o importante mesmo é tocar a vida, ouvir a música, essa é a arte), escreve sempre por paixão, necessidade de abandono. Escrever é uma tábua de salvação, usando uma metáfora bem popular.; um ofício que exige máximo respeito e dedicação. Eu digo sempre que isso de ser poeta é um sacerdócio. E quando alguém chega e me fala: "Acho que vou começar a escrever poesia", eu trato logo de convencer do contrário se noto que esse alguém não PRECISA realmente "carregar água na peneira", como no poema de Manoel de Barros (arrogância minha? pode até ser, mas foi a forma que encontrei de expulsar os mercadores do templo). Volta e meia a gente encontra dessas almas que nasceram sob a estrela da poesia, estão envoltas numa aura de mistério e vão causando rupturas por onde passam; pássaros ou outras coisas etéreas que tomaram forma de gente. Acho que a Michelle está entre essas almas: Acho. Só pra não falar de certezas absolutas. E Mosaicos é o primeiro livro dela, é uma beleza.
Mosaicos é estelar. A paixão pelas palavras, a relação consciente-inconsciente, imagens tremendamente cósmicas (alguns poemas simulam verdadeiros caleidoscópios), a natureza sem filtros e também simplicidade e concisão, qualidades de quem conhece o terreno e não veio ao mundo pra brincar de poeta ou enfileirar palavras. Muitas influências -- pois a autora é também uma grande leitora -- que só acrescentam à originalidade latente do livro. É um mosaico e tanto.
Tive a honra de ser o primeiro (ou um dos primeiros) a ler alguns dos poemas de Mosaicos e acompanhei parte da trajetória da Michelle até chegar ao atual nível de beleza e sinceridade na arte das palavras. Posso dizer com toda certeza que este livro é produto de muito esforço de aperfeiçoamento, raro talento e vivência na poesia. Vivência na poesia, sim; essa é a parte mais difícil e ela conseguiu.

A imagem da capa já está disponível (aquela lá no início do post, lindíssima!) e o livro já se encontra no catálogo da Editora Patuá em pré-venda (entrega após o lançamento que ocorre em junho).

E este é um dos poemas que a Editora Patuá divulgou no site. Dos três, o meu preferido, só de ler eu já sinto cheiro de natureza:

Há coisas que não
cabem em um poema:
a suave ondulação
que se desenha
na superfície da água
quando a cigarra
gentil
se molha.

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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Autobiografia de Alice B. Toklas

                           


Gertrude Stein fez de sua casa, em Paris, o ponto de encontro de gente como Pablo Picasso, Matisse, Hemingway, Scott Fitzgerald, Braque, Apollinaire e outros grandes nomes das artes do século XX. Sua companheira, Alice B. Toklas, cuidava dos trabalhos domésticos e ajudava a entreter os convidados, enquanto G. Stein encontrava uma forma de revolucionar a literatura. Claro que essa rotina nas mãos de uma grande escritora renderia um grande livro. Em Autobiografia de Alice B. Toklas, Gertrude Stein empresta sua voz de narradora a Alice e conta, assim, divertidos e reais episódios, num tom simples de quem os viveu e quer apenas contar o que aconteceu (talvez para alcançar este tom é que a escritora se viu na necessidade de assumir o olhar de outra pessoa).
Gertrude Stein dispensa apresentações, mas vamos lá: gênio (como ela mesma admitia ser), inventora da escrita automática, feminista, homossexual e provocadora em quase todos os sentidos possíveis. Escreveu grandes e inovadoras obras entre romances, peças de teatro e poemas. A arte contemporânea é impensável sem ela. Autobiografia de Alice B. Toklas é uma ótima escolha para começar a conhecer a obra da escritora.

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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Amar, Verbo Intransitivo - Mário de Andrade



Publicado em 1927, Amar, Verbo Intransitivo, é o primeiro dos dois romances do modernista Mário de Andrade.
Não é difícil imaginar o espanto que causou na época do lançamento. Não só pela trama – o que por si só bastaria para alterar os ânimos puritanos dos anos 20 – mas também pela linguagem profundamente imbuída do espírito da Semana de Arte Moderna; em suma: radical reconstrução.
Um dos aspectos mais marcantes de toda obra de Mário de Andrade é a constante busca pelo português brasileiro, este que é falado pelos vizinhos de, pelos parentes todos de todo mundo, pelo passante qualquer de rua. Podemos então dizer que o narrador de Amar, Verbo Intransitivo, é antecessor daquele que iria ainda mais fundo em Macunaíma, segundo romance do autor, por ele classificado como rapsódia devido à variedade presente no mesmo livro.
A história, narrada e estruturada de forma tão peculiar e até cinematográfica, gira em torno da iniciação sexual de Carlos, clássico jovem burguês, pela alemã Elza Fräulein (simplesmente Fräulein), contratada pelo pai de Carlos, Souza Costa, justamente para "ensinar o amor" ao filho mais velho, mas oficialmente para ensinar piano e alemão aos quatro filhos do casal. E aqui se faz notar a influência de Freud no livro de Mário (um apaixonado pela obra do pai da psicanálise): a iniciação sexual é vista como base para uma vida adulta decente, daí a importância que seja segura, sem descontroles. O sexo é a força motriz.
O autor usa de muita inteligência e humor para criticar a burguesia paulistana da época; crítica que está presente não só na construção de personagens e nas relações entre si, mas também na descrição de elementos burgueses caricaturais, como a biblioteca em que os livros são comprados apenas para serem expostos, e muitos dos quais nunca foram abertos, muito menos lidos.
Com estrutura e tema incomuns, é um livro incomum, que já começa a surpreender pelo título, já que amar não é um verbo intransitivo, e sim transitivo direto. Talvez seja essa uma forma de subverter ou desprezar a gramática dita correta, talvez uma forma de dizer que o ato amar é independente de objeto. Talvez os dois.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O Livro de Travesseiro (Makura no Sōshi)


O Livro de Travesseiro (Makura no Sōshi, 枕草子 ), de Sei Shōnagon, é uma das mais importantes obras da literatura japonesa.
O livro foi escrito durante o período Heian, época em que a aristocracia viveu seu apogeu, liderado pela família Fujiwara. A literatura foi a arte onde o espírito criativo da época alcançou seu auge, evidenciando a poesia, juntamente com o surgimento do monogatari e o nikki (exemplos predominantes de prosa). Foi nesse período também que o budismo começou a se espalhar pelo Japão, refletindo sua filosofia na estética. Apesar de a escrita chinesa (Kanbun) continuar sendo a língua oficial da corte imperial na era Heian, a introdução e ampla utilização do Kana proporcionou um grande desenvolvimento da literatura japonesa. As mulheres da corte foram as grandes responsáveis pelo florescimento da literatura vernácula e de certa maneira a fixar a forma do japonês castiço, já que os homens não escreviam em sua língua nativa, mas em Kanbun.
Sei Shōnagon (清少納言) (c. 966-1017) foi uma escritora japonesa e dama da corte imperial ou dama de acompanhamento da Imperatriz Teishi (Princesa Sadako). Ao lado de sua rival, Murasaki Shikibu, Sei Shōnagon compartilha uma fama única na literatura, que já dura por mais de 1000 anos.
O estilo de O Livro de Travesseiro é classificado como zuihitsu, uma coletânea de ensaios fugazes, pensamentos e fragmentos de textos. A obra é dividida em quatro vertentes:

* Ensaios sobre vários assuntos
* Ensaios expressando diferentes emoções
* Notas aleatórias, soltas
* Detalhes autobiográficos e poemas

Um fato inusitado é o título da obra "O Livro de Travesseiro" que não é de autoria de Shōnagon, foi dado por gerações futuras.
As principais caracteríricas a serem notadas no livro são o delicado poder observação e sensibilidade sutil e afiada, cuja combinação ajudam a revelar a intensidade dos gostos e desgostos da autora. Além disso, há a  presença de um caráter detalhista em muitas descrições. A natureza é um dos temas marcantes, juntamente com descrições de afazares e costumes da corte, permitindo uma imersão nos cenários da época.
O Livro de Travesseiro é uma obra ímpar, dotada de grande sensibilidade. É um mergulho através dos olhos de Sei Shōnagon a um Japão que vivia no auge de sua corte imperial. É a vivência do desejo de apreender o mundo que se vê, compreende e percebe ao correr do pincel.



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