terça-feira, 11 de março de 2014

O Carteiro e o Poeta (il postino)




O Carteiro e o Poeta (il postino) é um filme dirigido por Michael Radford, baseado no livro Il Postino, de Antonio Skármeta que conta sobre a amizade do poeta chileno Pablo Neruda e um carteiro que deseja aprender a fazer poesia.
O Carteiro e o Poeta narra o exílio - por motivos políticos - de Neruda em uma ilha na Itália. Lá, ele conhece Mario, um carteiro humilde e quase analfabeta, que se encarrega de suas correspondências. Com o passar do tempo nasce a amizade entre os dois, enquanto Mario ouve Neruda contar das lembranças do Chile, Neruda ajuda Mario a aprender a escrever poemas para mulher que ama.
É um filme realmente lindo, regado de belas paisagens italianas.





.

domingo, 9 de março de 2014

A Máquina do Mundo

Publicado originalmente no livro Claro Enigma, é por muitos considerado o poema mais importante escrito no Brasil no século XX.
Ler A Máquina do Mundo em voz alta é uma delícia, tamanha expressividade e ritmo que Drummond atingiu. Indo contra a corrente modernista, o poeta fez sua viagem existencial seguindo um modelo clássico, o mesmo seguido por Dante Alighieri na Divina Comédia (Drummond escreve os noventa e seis versos do poema em terza rima, decassílabos clássicos). A reflexão causada pela leitura do poema é, no entanto, seu maior mérito. Nos leva a transcender, como toda poesia (escrita ou não).

Obs: Um "cala-te boca" aos que ainda pensam Drummond como poeta imitável.

Segue o poema, boa viagem!

A Máquina do Mundo - Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

 
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.



.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Eros e Psique

...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.

(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio
Na Ordem Templária De Portugal)


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

 
 Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia. 


(Fernando Pessoa) 



.

quinta-feira, 6 de março de 2014

SEMINÁRIOS DE PSICOLOGIA ANALÍTICA 2014

Este ano os seminários do Espaço Arte-Ciência versarão sobre o tema "PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO" - o desenvolvimento e a maturidade psicológica - focado à luz: da imaginação ativa e idade madura; das experiências e vivências através do corpo; dos símbolos alquímicos e astrológicos.

Profissionais responsáveis:

Conceição Soares Beltrão, terapeuta Junguiana do Espaço Arte-Ciência;
Elisa Freitas Machado, bailarina, coreógrafa e terapeuta Junguiana (atualmente residindo em Paris);
Flora Bojunga Mattos, terapeuta Junguiana do Espaço Arte-Ciência.


Para mais informações, acesse:






.

domingo, 2 de março de 2014

Sylvia e Ted



Ao lado de Rimbaud e Verlaine, Gauguin e Van Gogh, Camille Claudel e Auguste Rodin, esta é uma das relações mais tempestuosas entre grandes artistas.
A vida à dois do casal de poetas Sylvia Plath e Ted Hughes foi trágica do início ao fim.
O choque cultural entre eles (ruralidade inglesa de Ted, americanidade exagerada de Sylvia), a obsessão de Sylvia pelo pai morto, sua ansiedade mórbida, foram esses -- na visão de Hughes -- os fatores que mais colaboraram para sua própria tragédia. Tragédia que é relatada em versos (tragédia grega!) no livro Cartas de Aniversário, de Ted Hughes, uma espécie de exorcismo que foi publicado trinta e cinco anos após o suicídio de Sylvia Plath (1963; aos trinta anos de idade, Sylvia veda o quarto dos seus dois filhos com toalhas molhadas e roupas e deixa pão e leite ao lado de suas camas, em seguida toma uma grande quantidade de remédios e abre o gás com a cabeça dentro do forno). Durante esses trinta e cinco anos, Hughes se negou a falar qualquer coisa referente ao seu casamento e foi vítima do ataque de feministas que o culpavam pelo suicídio de Sylvia e chegavam, inclusive, a acusá-lo de assassinato. Acusação reforçada pelo fato de sua segunda esposa, Assia Wevill (a mulher por quem ele se apaixonou quando ainda estava com Sylvia e com quem foi viver após a separação), ter matado a filha que teve com ele e logo após cometer suicídio da mesma forma que Sylvia.
Sabendo que estava com um câncer que certamente o mataria dentro de pouco tempo, Ted rompeu este longo silêncio com Cartas de Aniversário, um livro de tensos e belos poemas que ele assim definiu: 
"Escrito sem planejamento ao longo de 25 anos, este é um livro no qual eu tentei estabelecer um contato direto, privado, íntimo, com minha primeira mulher, não pensando em fazer um poema, mas principalmente pensando em evocar sua presença e senti-la ali, escutando".
Cartas de Aniversário passou meses nas listas dos mais vendidos na Inglaterra e nos Estados Unidos, chegando ao primeiro lugar, um feito raro para um livro de poemas. E Ted Hughes morreu em Londres, 28 de outubro de 1998, pouco depois de publicá-lo.
O filme Sylvia - Paixão Além de Palavras, de 2003, conta essa história, trazendo Gwyneth Paltrow no papel de Sylvia Plath e Daniel Craig no papel de Ted Hughes. Fica a indicação.
Abaixo transcrevo um trecho do poema Um vestido de malha rosa (A Pink Wool Knitted Dress) que descreve o dia do casamento dos poetas (16 de junho de 1956, o Bloomsday, dia vivido por Leopold Bloom em Ulysses, clássico de James Joyce. Coincidência nenhuma, claro), a tradução é de Paulo Henriques Britto.

"Tão esguia e nova e nua.
Úmido ramo de lilás ao vento.
Você tremia, soluçava de júbilo, você era o abissal
Transbordando de Deus.
Você disse que viu os céus se abrirem
E revelarem riquezas, prestes a chover sobre nós.
Levitando a seu lado, eu submetia-me
A um tempo estranho: o futuro enfeitiçado."


.