quarta-feira, 17 de maio de 2017

Um poema da etnia bambara

Ondula, savana branca, de Ruy Duarte de Carvalho, é uma coletânea de textos, publicada em 1989, das mais diversas tradições orais africanas. A obra está dividida em "Versões", "Derivações" e "Reconversões", configurando as várias operações que Duarte realiza a partir do material da oralidade de vários povos africanos (Fulani, Yorubá, Pigmeu, Ngoni, Didinga, Akan, Dinkas, Xhosa, Thonga, Somali, Barg-dâmaras, Mensa, Zulu, Nyaneka, Kwanyama). Com sua sensibilidade poética e transitando pelos domínios da etnografia, Ruy Duarte de Carvalho produz um livro instigante e de uma riqueza cultural e literária enorme.
Uma das partes de Ondula, savana branca, a "Bambara"(etnia Bambara [Bamaba, na sua própria língua, ou algumas vezes, Banmana] é um povo que vive no oeste da África, principalmente no Mali, próximo ao rio Níger), é regida pelo "Ensinamento oral do Koré". As estrofes são organizadas com informações a respeito do processo de iniciação ao conhecimento de preceitos do Koré, aprendido pelos membros do povo Bambara, desde a mais tenra idade, como uma forma da preparação da espiritualização e divinização do homem.
Abaixo, segue o poema, considerado para mim como um dos mais belos que já li:


Ensinamento oral do Koré
A voz dos Karaw
*

PRIMEIRA TIRADA


Savana verde bem fresca
savana verde verdadeiramente aberta
à fome dos rebanhos
exposta aos rebanhos famintos
savana verde
não se apossou a terra ainda
do meu corpo
e eu posso abrir os prados
                                 da palavra.

Deslumbramento, surpresa!
Já existia o que se aprende agora
e o que acontece acontecia já.
Mas como havia de sabê-lo então
quando a torrente me arrastava ainda
e eu via a minha face a renovar-se?

O princípio do princípio da palavra
foi quando o pássaro disse para si mesmo:
eu falo, sua a beleza, o som e o movimento
e a consciência exacta destes dons.

E se eu me engano
que o castigo seja cego para o meu erro
e o esquecimento ressalve o esquecimento
porque eu não passo de um punhal
embainhado
porque eu não sou abóbada celeste
nem sou o filho da abóbada celeste
e nem sequer o espaço do encontro
a que se entregam as asas do crepúsculo.

Eu sou aquele, apenas
que está rendido ao canto que anuncia
o fim da noite
e o despontar da aurora.

Uma atenção sem fé engendra o esquecimento
e o esquecimento é que apadrinha o erro.
Da casa do saber
um pátio apenas sou e no entanto um pátio
pertence já também à construção.

Cada conquista
provém de outra conquista
e a posse da ciência é discernir
como se entrança nelas o saber.
É casa já também
o pátio que precede a construção.

Transformação
transformação.
Fornalha
fornalha do homem.

Dos homens pacientes
eu digo que a paciência
é uma paciência clara.
Eus o espaço do encontro:
toda paciência é uma paciência clara.

Transformação!


SEGUNDA TIRADA


Ondula, ondula
savana branca
até que tudo se confunda em ti.

Oh fragmentadores da noite crepuscular
por detrás dos animais só há obscuridade
e obscuridade só
pela sua frente.
O poderoso hipopótamo
está perdido num bosque sem saída.
Já quando quis entrar
recorreu a uma pequena criatura
cega como ele e como ele perdida.
Como fará o cego para que possa ver?
Será capaz de assegurar ao passo
a graça da cadência original?

A fornalha poupou-nos
preparou-nos
para atravessar as portas do mistério.

Verga-te, oh céu
e entrega-te tu, oh terra
para que eu veja essa clareira branca
o mato abandonado
a mata abandonada
e nada se oculte
tudo esteja lá.

A fornalha poupou-nos e é tempo de dizer
velhos e vãos fragmentadores do céu
que o corpo não findou
e está ressuscitado.

Submetei-vos
asas brancas do crepúsculo
ao lugar do encontro dos espaços
à primeira das palavras
a que remonta à parição do homem
e viajou por todas as clareiras
até desembocar na casa do saber.

Eis a Palavra, é esta
a que não dorme
a que não cessa de aguardar
no coração dos homens.
Conhece-a apenas o urso formigueiro
visionário que escava no mais fundo
e o porco-espinho
que é o mestre protector do conhecimento herdado
e o falcão branco
que é rápido e ladino
e se apercebe de tudo ao mesmo tempo.
Mas foge ao falcão cinzento
que não se fixa e voa distraído.

Aquilo que eu sei
alguém mo legou.
Pai Palavra
Mãe Palavra
Palavra anterior
vem e transforma já o meu futuro.

Repartamos a carga pelas nossas cabeças
oh filhos dos fragmentadores do céu
unamos a perseverança do aprendiz
à perseverança do mestre.
Transformação!

Acalmai-vos
fragmentadores alados do crepúsculo
eu sou a Palavra
a abóbada celeste
o encontro dos espaços.

A noite é escura
vazia não é.


TERCEIRA TIRADA


Como o punho da lança
como a abóbada celeste
como o filho único da altura
acalmai-vos, eis-me aqui
oh sopradores do crepúsculo

Abóbada celeste
filho único da altura
ave surda-muda
labareda acesa que não atinge o osso.

Obscura é a palavra
embainhada até para os velhos mestres
e mesmo o fundador
foi procurar sabê-la mais além.

Há coisas úteis na casa do amigo
e há coisas úteis na do inimigo:
não será pois de recorrer às duas?
Pela paz se alcança a paz
e o que há para além da paz.
Labor imenso!
Transformação!

O que se ensina agora existe desde sempre.

E é a casa já também
o pátio que precede a construção.


QUARTA TIRADA


Savana verde bem fresca
savana verde verdadeiramente aberta
à fome dos rebanhos
exposta aos rebanhos famintos
savana verde:
não se apossou a terra ainda
do meu corpo
e eu posso abrir as portas da palavra.

Ave surda-muda
palavra obscura
                       o que há no alto
                       oh sopradores da noite?

Se interrogardes a velha experimentada
saberá elucidar-vos que se trata
da fornalha
do calor
dificuldade extrema.

Mas as verdes raparigas sabem bem
que o fogo não é forte:
resiste mas convida
e se abandona enfim
a quem persiste.

O que se ensina agora
existe desde sempre
e há coisas úteis na casa do amigo
e coisas úteis na do inimigo.

Obscura é a palavra
embainhada até para os velhos mestres
e mesmo o fundador
foi procurar sabê-la além de si.
O que seria enfim da reflexão
se a não iluminasse a luz do espírito?

O que sabeis das tranças do saber
velhos e vãos fragmentadores da noite?

O que sabeis da luz da reflexão?

     — QUE HABITA NA PENUMBRA DO MISTÉRIO!




Bibliografia consultada:

CARVALHO, Ruy Duarte de. Ondula, savana branca. Luanda: UEA, 1989.
FONSECA, Maria Nazareth Soares.  Percursos da memória em textos das literaturas africanas de língua portuguesa. Niterói: Gragoatá, n.19. p. 45-63, 2. sem. 2005.


Texto de Michelle C. Buss
.
Evoé
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sexta-feira, 28 de abril de 2017

SOCIEDADE DA IN FORMAÇÃO OU O QUE AS SEREIAS CANTARAM TAMBÉM A ULISSES


 Choque elétrico no chuveiro
fio mal conectado
nesse aquário morno
soletrado


C-O-T-I-D-I-A-N-O

de ondas indecentes e confluentes
azulejos portugueses
e o resto de palha da cubata.

Aqui é o Brasil
mas podia ser qualquer lugar do mundo
em qualquer hora
só neste momento.

Teia invisível
do quarto mundo
do quarto nível
envolvendo tudo-nada
nesse quarto
em que o homem deita na mulher que não quer.

Atira a palavra.
atira
do revólver da tua boca
e acerta o coração.
Acerta o coração da moça, do pai, do avô
uma vez que o gatilho dispara não tem volta

BUM

Vai-se mais uma bala
um tiroteio de palavras naquele outro quarto.

Além da janela
vai lá o moleque
canta qualquer coisa que escutou na rua
para ter música na língua
já que na alma tem pouca.
Canta para enganar o estômago:
passarinhos da fome
debatem suas penas afiadas
nos músculos de dentro.
Torce e arranha.
Mas assim mesmo
a língua salivada continua cantando.

Passa por ali,
perto do moleque,
tá vendo ali?
Não, não aquele Ford...
Naquela Mitsubishi
no banco de trás
o poeta calado pela indiferença
reprimindo nos dedos o poema.

É difícil prender poemas
mas às vezes se consegue
quando o medo do verbo
é maior que o amor
quando medo de ser poeta
é maior que ser.

Cala o poema
Poema calado.

No banco da frente
ela que ama mais o carro que
o motorista
que não ama ela
mas o jovem ao lado do poeta
que nem citei.
O motorista e ela
um casal descasado
como qualquer outro
e tantos iguais a outros: casados.

Do outro lado da rua,
quase na esquina
o velho
carregando o dia nas costas
e nas mãos o final de mês.
Passando por ele
o garoto fumando maconha,
camiseta hippie chique
com uma frase marxista.
Acha que isso é revolução –
Revoluciona ação.

E nesse aquário de água parada
cheia de resíduos
eu nem falei ainda
do vendeiro, do americano,
da diarista, das des-africanidades,
do chinês, dos boêmios,
do banco, banqueiro, seus bancários

de diplomas comprados
dos intelectu-ais: conforme – citação indireta
alguém, talvez Freud ou Foucault
do religioso sem religião,
da religião sem religiosos,
de médicos faz de conta que são médicos,
das falsas famílias pregando famílias,
das depressões,
depredações,
negações.
ações corruptas
rupturas de personalidade.
Noites em que lua é pregada no céu
porque nem a lua quer ser mais lua.

Bebe um pouco de cachaça
para amolecer essa língua.
entortar um pouco essa palavra...

Nem precisa falar.
Tá tudo ali!
Não na próxima linha,
não nesse poema.
Tá ali fora
nesse aquário

C-O-T-I-D-I-A-N-O

Hashtag #sociedade
precisa mesmo um
pouco de eletricidade
na barbatana
escorrendo pela água do chuveiro

Peixe que
Anda
Nada.

(Michelle C. Buss)


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Evoé
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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

sou pulmonar...

sou pulmonar...
tem um quê de estrela em meu peito
 um tanto de água na minha respiração
 e o som de marimba que bate no cardíaco.

sou pulmonar...
tenho um pouco de vento
sopro de vida que tinge o espaço de flores
e carrega no corpo uma canção.

sou pulmonar...
e meu corpo é um instrumento
de pele percutida.

Ar e Som

em movimento
de respiração


(Michelle C. Buss, poema do livro "Sal, topázio e mercúrio")




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Evoé
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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Rebirth Poem

se o dia acabar amanhã
que seja comendo chocolate
depois de passar a noite olhando estrelas
e decodificando o mistério da matéria escura
misturada aos filamentos de luz, gás e poeira
enquanto se é lembrado um antigo conto cherokee
contado por um avô que nunca existiu
mas que se faz presente com seu cachimbo
e seu sorriso maroto.


se for para acabar amanhã
que seja rindo para a solidão
e abraçando a tristeza
pra mostrar pra elas
que o afeto supera rótulos e energias.

se for para se ir amanhã
que seja enquanto se lê um poema de amor
daqueles que faz Drummond chorar de emoção
daqueles que faz a gente ter certeza que para todos existe
um pé de sapato velho à espera e
uma sintonia única.
que seja para ter certeza que o amor existe
mesmo que ele exista apenas em um poema.

se amanhã for o fim
que seja depois de ter orado e pedido perdão
a esse corpo que aturou tanto pensamento
desconexo
que seja pra dizer gratidão a esse corpo
que ensinou a sentir e se tornou a caixinha
de inúmeros desejos.

se amanhã for o último dia
que seja depois de tomar um suco de laranja bem doce
pra lembrar depois da vida
se tiver vida depois dessa
que há doçura no mundo
nem que seja no paladar.

se amanhã for o respiro final
que seja depois de consultar
memórias felizes
de amigos, de família, de conquistas
lembrar que existem coisas boas
mesmo que o bom seja apenas uma ilusão.

se o dia acabar amanhã
que seja depois de ter andado
pela natureza
pra retornar às raízes
e sentir a própria natureza
nem que seja isto a primeira e única vez.

se for pra acabar
que seja em pleno amanhecer
pra lembrar de amanhecer
mesmo que o dia acabe (...)


(Michelle C. Buss, do livro "Sal, topázio e mercúrio")



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Evoé
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sexta-feira, 27 de maio de 2016

DEZ CANÇÕES SEM AS QUAIS VOCÊ NÃO PODERÁ VIVER NEM MAIS UM SEGUNDO

Divulgando a campanha do artista Guto Leite. Vamos ajudá-lo! O trabalho dele é incrível! Segue abaixo a proposta:

"Faltam menos 20 dias para o fim da campanha de financiamento coletivo do meu primeiro disco físico DEZ CANÇÕES SEM AS QUAIS VOCÊ NÃO PODERÁ VIVER NEM MAIS UM SEGUNDO, que envolve uma porção de artistas bacanas do Rio Grande do Sul e de São Paulo.
É possível contribuir com qualquer valor, sendo que há recompensas físicas a partir de R$10,00 e o disco, que só será vendido durante o financiamento coletivo, pode ser comprado a R$35,00."

O link em que se pode fazer o apoio é este: https://www.catarse.me/dezcancoes 

Há diversos materiais (canções, poemas, filmes, fotos, vídeos etc.) a respeito do projeto na página de artista do Guto no Facebook: https://www.facebook.com/gutoleitemusic/


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