sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Cinco poemas de Luís Filipe Sarmento

Cinco poemas do poeta português, Luís Filipe Sarmento. Em breve traremos a resenha do seu livro mais recente, "Efeitos de Captura"


Esta foto
captura-me
representa-me
autentifica-me
depois de morto.
No regresso à poesia
Rasgo-a.
O tempo não captura
o mistério do poema.

(Luís Filipe Sarmento, do livro "Efeitos de Captura", 2015)




As espumas tóxicas como subtilezas dos desastres
esvoaçam cegas ao encontro dos olhos de novas vítimas
para que a destruição seja total e o crime perfeito.
Rupturas e colisões esfregam os territórios condenados
como se o tempo fosse sucção eterna de medos.
Nada escapa à destruição e da destruição nada interessa
ao futuro, à reinvenção do lugar das ruínas.
Há textos que não se desejam como cinzas passadas,
como palavras desmontadas que não são letras
nem sílabas, mas ausências do que foram, pedaços cremados
de acções de pecado de autoria aparentemente anónima.
Há textos que se desejam como forno de destinos,
como modelo dos novos arquitectos que desenham a linguagem
do seu corpo ideológico e partem dos destroços para o deserto
das ideias destruídas; e erguem o novo edifício
com línguas que procuram no futuro e que projectam novos
desejos, novas harmonias, para que os sobreviventes
nascidos no último grito que a morte sufocou
sejam proclamados na festa da palavra. Novos afectos
do significado na tradução dos desígnios.
O novo fogo metafórico, a jovem cidade em busca de um país
que está no futuro, depois do ar de vidro onde a transparência
é tão natural como o idioma que emerge do esquecimento
do passado. E a terra continua a mover-se até que o Sol
lhe forneça o fogo distante.
Mover-se-á a linguagem em cada sopro dos lugares.


(Luís Filipe Sarmento, do livro "A Casa dos Mundos Irrepetíveis", 2015)




Esta é a Europa das fraudes, dos impedimentos, do desprezo
humano, da corrupção, das proibições, das barreiras,
dos muros da vergonha, das cortinas que escondem misérias,
do assalto às multidões. Esta é a Europa sem memória,
da festa dos eleitos em reuniões clandestinas em hotéis de luxo,
da manipulação, da destruição da esperança, do holocausto
programado. Esta é a Europa sem solidariedade,
que assassina a fraternidade entre povos, que vilipendia
a diferença, que envilece culturas, que promove mortandades.
Esta é a Europa da globalização da pobreza e da miséria,
da normalização digital das mentes, dos alimentos, das medidas,
das fardas virtuais, da descaracterização do homem regional.
Esta é a Europa dos criminosos, dos assassinos, dos corruptos,
dos títeres, das marionetas, dos vermes. Esta é a Europa
dos cadáveres, do sangue putrefacto, da prosa enlameada
pelos detritos das fortunas roubadas às nações. Esta é a Europa
que deflagrou a democracia, a política, o consenso,
a Europa que se suicida dia a dia nos cadafalsos da especulação,
dos famigerados mercados, das bolsas e dos seus carrascos.
Esta Europa é um imenso Vesúvio, de múltiplas crateras, o terramoto da vergonha, o dilúvio da ambição, o esgoto do caos.
Esta Europa é uma Comissão de loucos, fanáticos, cobardes,
o buraco negro da dignidade humana.

(Luís Filipe Sarmento, do livro "A Casa dos Mundos Irrepetíveis", 2015)




Na experiência do corpo
a impossibilidade total do objecto
risco de fronteira
a intemperança do olhar
reduz o kaos ao abysmo
dos sentidos;
mergulho livre
na exposição ao perigo
no horizonte de eventos
a boca inunda-se
de um dilúvio pleno
retomando o corpo perdido.

(Luís Filipe Sarmento)




Há olhos excessivos
que se excedem no que vêem;
a essência capta-se
no resgate transparente
da imagem que não reproduz:
polar níveo
de que se imagina
a morte.

(Luís Filipe Sarmento)




Luís Filipe Sarmento nasceu a 12 de Outubro de 1956. Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Escritor, Tradutor e Realizador de Televisão. Jornalista, editor, realizador de cinema e vídeo. Professor de Escrita Criativa. Alguns dos seus textos encontram-se traduzidos em inglês, espanhol, francês, italiano, mandarim, japonês, romeno, macedónio, croata e russo.




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Evoé
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Os ensinamentos de Iris Apfel



Aos 90 anos, Iris Apfel, ícone do design de interiores, moda, estilo e da autenticidade, escreveu as grandes lições do seu envelhecimento.

1. A vida não é justa, mas ainda é boa.
2. Quando estiver em dúvida, dê somente, o próximo passo, pequeno.
3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.
4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.
5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.
6. Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar.
7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.
8. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.
9. Quanto a chocolate, é inútil resistir.
10. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.
11. É bom deixar suas crianças verem que você chora.
12. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.
13. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.
14. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mas não se preocupe; Deus nunca pisca.
15. Respire fundo. Isso acalma a mente.
16. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.
17. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.
18. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.
19. Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.
20. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use lingerie chique. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.
21. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo.
22. Seja excêntrica agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.
23. O órgão sexual mais importante é o cérebro.
24. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você..
25. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras 'Em cinco anos, isto importará?'
26. Sempre escolha a vida.
27. Perdoe tudo de todo mundo.
28. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.
29. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo...
30. Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.
31. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.
32. Acredite em milagres.
33. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.
34. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.
35. Envelhecer ganha da alternativa -- morrer jovem.
36. Suas crianças têm apenas uma infância.
37. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou.
38. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.
39. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.
40. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.
41. O melhor ainda está por vir.
42. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.
43. Produza!
44. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.




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Evoé
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sábado, 28 de novembro de 2015

Sarau Gente de Palavra Transoceânico - Coimbra

Coimbra, 26 de novembro, noite fria e linda, noite em que ocorreu, no inspirador Salão Brazil, o primeiro sarau Gente de Palavra longe das terras brasileiras: Sarau Gente de Palavra Transoceânico.
O evento foi uma parceria do Salão Brazil e da Revista Gente de Palavra e reuniu um público com mais de setenta pessoas. Houve microfone aberto a com leitura de poemas autorais e de poetas como Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Fernando Pessoa, Agostinho Neto, entre outros. Para tornar a noite mais colorida, a poesia dividiu espaço com a música através da interpretação de canções brasileiras e inglesas. Além disso, o músico João Camões acompanhou com seu violino a leitura de alguns poemas, um casamento perfeito entre som e palavra.
Brasileiros, portugueses, italianos e espanhóis marcaram presença no evento, que primou por compartilhar a arte sem fronteiras. João Rasteiro, Pires Laranjeira, Filipe Furtado, João Camões, Tom Barreto, Amanda Gomes, Fernanda Lacombe, Felipe Loureiro, Fábio Lucindo estão entre os nomes que trouxeram música e poesia para o palco do Salão Brazil.
A cobertura fotográfica ficou a cargo de Tom Barreto e as imagens podem ser conferidas na íntegra na página do Facebook da revista.

Michelle C. Buss
Fotografia: Tom Barreto

Filipe Furtado
Fotografia: Tom Barreto

Pires Laranjeira
Fotografia: Tom Barreto

Felipe Loureiro
Fotografia: Tom Barreto

Tom Barreto
Fotografia: Fábio Lucindo

Amanda Gomes
Fotografia: Tom Barreto

João Rasteiro
Fotografia: Tom Barreto

Fernanda Lacombe
Fotografia: Tom Barreto

João Camões
Fotografia: Tom Barreto

Salão Brazil
Fotografia: Tom Barreto

Vitória Paes
Fotografia: Tom Barreto

Fábio Lucindo
Fotografia: Tom Barreto




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Evoé
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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

As flores de plástico não morrem


Foto: Amanda Gomes

O vinil é um meio de as pessoas se presentearem com músicas.
Aquele pedaço de papel cartão que mede 30cm x 30cm carrega artes gráficas desenvolvidas cuidadosamente, desde a capa até o encarte, os quais são finalizados através de um processo quase totalmente científico, não fosse a poesia que está intrínseca nas imagens impressas. O disco é como uma flor embrulhada, cujo papel estampa fotos, cores e nomes, mas também pode servir de base para muitas declarações (sejam elas de amor ou não).
No terceiro andar da Galeria Chaves, um dos prédios veteranos da Rua dos Andradas, situada no centro histórico de Porto Alegre, existe um espaço dedicado a esses objetos, cujo valor está presente não só em sua materialidade, mas também no conteúdo: as canções que pairam na imensidão do tempo. Para os amantes dos discos, tanto clássicos como obsoletos – que podem se tornar descoberta fabulosas –, visitar a Tamba Discos é como passear pela própria infância e juventude, ou mesmo desvendar épocas que não foram vividas. Na pequena sala, há milhares de álbuns, pendurados nas paredes e dispostos nas prateleiras, que já emocionaram muitas pessoas e estão prestes a emocionar o próximo comprador ou o seu destinatário. 

Foto: Amanda Gomes

A Tamba Discos possui diversos álbuns que marcaram décadas e gerações. Tristes ou alegres, algumas músicas têm o poder de acessar memórias e trazê-las à tona como um tufão, varrendo todos os pensamentos que encontram pela frente e ativando apenas uma cena, um gesto, um olhar, um sorriso, um sentimento, uma vontade. A música transgride as regras do tempo. Através de apenas uma nota, pode-se reconhecer o que foi a trilha sonora de uma história. Se o arranjo inicial pode remeter imediatamente ao todo que compõe a melodia responsável por embalar uma fase da vida, o refrão é capaz de deixar o coração em frangalhos e os olhos mareados, acelerando a pulsação e fazendo-nos mergulhar nas lembranças. 

“Desde criança eu tenho familiaridade com a música, os discos sempre estiveram à minha volta através da coleção que era do meu pai.” 

Michel Munhoz, de 37 anos, é bem mais do que o atendente da Tamba Discos que vende LPs e CDs novos e, em sua maior parte, usados. Ele é amante e profundo entendedor de música. Apaixonado por rock in roll, ele já fez parte de bandas do gênero e segue desenvolvendo trabalhos musicais em estúdio para diversos fins. Por isso, suas vidas pessoal e profissional são atreladas à música. “A música, além de fazer parte do meu trabalho aqui na loja, está presente nas atividades que desenvolvo fora daqui e que também geram parte da fonte do meu sustento”, destaca Munhoz. 

“Antes de trabalhar na Tamba Discos, eu já frequentava esse lugar há mais de 20 anos.” 

Há cinco anos, o musicista conduz o empreendimento que muito frequentou na juventude. Ele relata que, quando o dono da Tamba Discos estava precisando de alguém que conhecesse a loja e as sutilezas que ela possui para nela trabalhar, logo surgiu o interesse de Munhoz em ocupar vaga sugerida. “Isso era para ter durado cerca de seis meses, só para quebrar um galho, mas ainda estou aqui”, ele vibra. Enquanto seu colega de trabalho e proprietário do comércio vai em busca de vinis que possam ser revendidos por eles, Munhoz se preocupa em atender o público cativo do lugar e indicar os álbuns que se aproximam do gosto musical de cada um. “A faixa etária que costuma procurar nossos produtos vai dos 20 aos 80 anos, nosso público é muito variado”. Munhoz conta que, assim como a idade dos clientes, os gêneros musicais procurados por eles são abrangentes. Embora o forte da loja sejam os álbuns de rock in roll e pop, os discos de música clássica, Música Popular Brasileira (MPB), jazz e orquestras também são requisitados. 

Foto: Amanda Gomes
 
“O disco que mais me pedem é o Tropicália ou Panis et Circenses, mas faz tempo que ele não passa por aqui.” 

Gravado em estúdio, com composições e interpretações de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé; dos poetas José Carlos Capinam e Torquato Neto e do maestro Rogério Duprat, o disco Tropicália ou Panis et Circenses foi lançado em julho de 1968. Símbolo máximo do que significou o movimento tropicalista, idealizado musicalmente por Caetano e Gil, a obra sintetiza as angústias e ambições da geração que viveu o final dos anos 1960 e início da década de 1970. Munhoz diz que relíquias como essa são raras de se ver no mercado e, quando são encontradas, o preço é bastante alto (podendo ultrapassar R$ 100).

 “O disco que eu considero um verdadeiro patuá da loja é do Daminhão Experiência.”

O bilhete junto ao disco demonstra a admiração
do pessoal da loja por Daminhão, que é considerado por eles
o "pai" da música experimental.
Foto: Amanda Gomes

Munhoz relembra que várias pessoas já quiseram comprar o álbum, mas ele sempre fez questão de ressaltar que o disco não estava à venda. “Os conterrâneos do Daminhão Experiência (nascido no Rio de Janeiro), ou quem teve oportunidade de conhecer o trabalho dele, se virem o disco vão querer leva-lo”, decreta o musicista. “Um cliente carioca, que chegou a conhecer o Daminhão, veio aqui na Tamba e contou sobre a história do artista, super interessado em comprar o LP, mas eu não vendi não”, ele ressalta. De acordo com Munhoz, o próprio Daminhão teria gravado seu LP de modo artesanal em sua casa. “Se tu escutares esse disco, verás que ele tem muitas músicas experimentais”, alerta o atendente. Segundo ele, o mais curioso sobre Daminhão, que ainda é vivo, é que o artista começou a produzir seus próprios discos nos anos 1970, após se aposentar da Aeronáutica, e a tocar nas ruas de Botafogo. “Esse cara é uma lenda urbana do Rio de Janeiro”, exclama o musicista. 

“Em primeiro plano, o que é mais especial no vinil é a sua sonoridade.”

Para Munhoz, a sonoridade do vinil é única. “O som do LP é analógico, não é como um compact disc, cuja sonoridade é totalmente esterilizada e a reprodução parte de uma leitura binária. O vinil não, experimenta escutar a intensidade dos graves, a musculatura do som, a fricção do acetato da matéria vinílica”, ele pontua. O musicista fala ainda sobre a maneira adequada de se apreciar um vinil: “Como a agulha faz a reprodução do som pelo contato com o LP, através do sistema analógico, ela também capta sons externos, por isso o ambiente pode ajudar ou atrapalhar a escuta do ouvinte”. O método de gravação da voz e dos instrumentos das canções no plástico do disco é um processo físico. Os sons ficam guardados nas ranhuras pelas quais passeia a agulha. “O caminho que a agulha percorre não é linear, ela oscila, muda de nível, e o próprio vinil balança à medida que ele gira e faz a música tocar”, reflete Munhoz ao descrever um objeto atemporal. 

“Ler um encarte é como folhear um livro.” 

Conforme Munhoz, é isso que prende a atenção das pessoas e faz com que elas sintam necessidade de pegar o vinil na mão, examinar os detalhes das imagens, folhear o material, dar uma olhada na ficha técnica. É como ler um livro: ao manusear o disco a gente imagina as coisas, viaja ouvindo o álbum e, ao mesmo tempo, tem o contato com ele”. Ele conta que alguns discos chegam na loja em estado deplorável. “Nós fazemos um trabalho criterioso para receber LPs de boa qualidade. Não adianta o disco ser raro e seu estado de conservação estar péssimo”, ele pondera. 

Foto: Amanda Gomes

“Eu lembro de um disco do Zé Ramalho, que tinha uma dedicatória enorme dentro, com assinatura e data de 1978, mesmo ano de lançamento do LP.” 

Acompanhando o universo das trocas que uma loja de artigos usados promove há bastante tempo, Munhoz relembra algumas histórias curiosas de remetentes e destinatários que são eternizadas nas capas e nos encartes dos discos. “Quando fiz a leitura do texto, notei que a pessoa estava com o sentimento à flor da pele para dar aquele disco de presente, mas não percebi se ela queria desfazer o relacionamento ou reatar, porque o sentido das frases era dúbio”, narra ele. O musicista diz que já vendeu esse LP e que, quando o cliente se interessou pelo material, ele fez questão de mostrar a dedicatória, temeroso de que isso impedisse o negócio. “Daí o cara me disse: ‘Nossa! Eu vou levar esse disco, eu preciso levar esse disco’, e eu pensei: Poxa, que legal, ele leu e gostou”. Para o músico, a graça das dedicatórias é que elas são encontradas de surpresa. “Eu não separo os discos que têm dedicatória dos que não têm, e cada vez que a gente se depara com uma, a novidade é inevitável”.

 “O disco é a passagem do tempo.” 

Quando se está gravando e produzindo, desenvolve-se um trabalho de registro. De acordo com Munhoz, gravar um álbum é como fotografar: “O que é prensado e gravado no disco, vai estar ali eternizado”. Segundo ele, um LP possui uma durabilidade muito grande. O musicista afirma que as gravações de um CD, por exemplo, podem sumir em um período muito mais curto do que as de um disco de vinil. “O vinil tem essa atemporalidade”, reitera ele. Conforme Munhoz, ao fazer uma canção, o compositor pode tratar de um tema que deve ficar datado, como a ditadura militar no Brasil, ocorrida na década de 1960, por exemplo. “Tem vinis que possivelmente servem como objetos de pesquisa de determinada época, funcionando como um arquivo da cultura”, acrescenta ele. Quando pergunto sobre a música que traz boas lembranças aos próprios ouvidos do musicista, ele diz que essa pergunta, feita dentro de uma loja de discos, é difícil de ser respondida. Concordo com ele, mas insisto que certamente existe uma letra que marcou uma fase de sua vida. Então, Munhoz posiciona uma das mãos no queixo e começa a olhar para a parede repleta de capas, até que encontra o álbum Ocean Rain, da banda inglesa Echo and the Bunnymen, de 1984. 

Michel Munhoz com um dos seus discos favoritos.
Foto: Amanda Gomes


“Neste disco tem uma música que eu gosto muito e me lembra esta mesma loja há uns 20 anos, quando eu comecei a trabalhar nela e este disco estava exposto. Na época eu o comprei e ainda ouço.” 

Sete Mares (Seven Seas) 
Echo And The Bunnymen 

Apunhale um coração arrependido
Com o seu dedo favorito
Pinte o mundo inteiro de azul
E pare as suas lágrimas de remorso
Ouça o canto dos trogloditas
Boas notícias eles estão trazendo

Sete mares
Nadando-os tão bem
Contente de ver
A minha face entre eles
Beijando o casco da tartaruga

Um desejo
Por uma nova sensação
Pertencimento
Ou apenas ajoelhar-se eternamente
Onde está o sentido no roubo
Sem a graça de ser ele

Sete mares
Nadando-os tão bem
Contente de ver
A minha cara entre eles
Beijando o casco da tartaruga

Queimando minhas pontes
E destruindo meus espelhos
Voltando para ver se você é covarde
Queimando as bruxas com mãe religiosa
Você acenderá o fósforo e me banhará
Em jogos aquáticos
Lavando as rochas abaixo
Ensinado e amansado
A tempo com fluxo de lágrima

Sete mares
Nadando-os tão bem
Contente de ver
A minha cara entre eles
Beijando o casco da tartaruga

Sete mares
Nadando-os tão bem
Contente de ver
A minha cara entre eles
Beijando a tartaruga

Sete mares
Nadando-os tão bem
Contente de ver
A minha cara entre eles
Beijando o casco da tartaruga


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Evoé
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terça-feira, 24 de novembro de 2015

Sarau Gente de Palavra Transoceânico




Atravessando os mares e chegando às terras lusas, Gente de Palavra em parceria com o inspirador espaço, Salão Brazil, e organização de Michelle C. Buss, realizam o Sarau Gente de Palavra Transoceânico. 
Um pouquinho da poesia contemporânea brasileira e portuguesa colore o espaço do evento, criando um momento para compartilhar também a poética e a música de outros recantos do mundo. É poesia e música sem fronteiras, poesia e música que atravessam oceanos, montanhas, cidades, que pousam nos corações, palpitam nos lábios e nos corpos. Poesia e música que voam livre, que são vida e se reinventam.
O sarau terá microfone aberto, então, traz teus escritos, traz tuas músicas, ou de artistas favoritos, traz amor e vem compartilhar, construir esse momento especial e de muita arte.

Presenças poéticas e musicais confirmadas:

Amanda Gomes
Felipe Loureiro
Fernanda Lacombe
Filipe Furtado
João Rasteiro
Michelle C. Buss
Pires Laranjeira
Poetas do Amanhecer
Tom Barreto

Confira o trabalho de Tom Barreto, que fará a arte fotográfica do evento:



Quando: 26/11/2015
Onde: Salão Brazil
Horário: 22 horas
Entrada: Gratuita




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 Evoé
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