Alexa Meade é o tipo de artista que resolveu quebrar os parâmetros da arte e abordar um novo conceito.
Num olhar superficial ao trabalho dessa americana, acredita-se que são quadros expressionistas. Entretanto, quando contemplados com mais atenção percebe-se o jogo da tridimensionalidade combinado à camuflagem: não são imagens; são pessoas!
Meade revolucionou a dimensão do bodypainting através de instalações que adaptam os objetos as formas em questão, a artista cria uma verdadeira tela viva. Ela ajusta a realidade a seu modo de ver o mundo. Através de uma técnica desenvolvida pela artista a tridimensionalidade perde um de seus campos para se converte em uma figura bidimensional, uma trama ilusória ao espectador.
O nome de seu atual projeto é "Trompe l'oeil" fazendo referência ao lema "a arte imita a vida". Meade, nessa coleção, utiliza-se de muita tinta acrílica que constrói a ideia de uma máscara em cima dos objetos que pinta. Uma máscara que cobre e também protege, sem alterações ou danificações a essência desses objetos .
Conforme a artista: "Os modelos que utilizo são transformados em personificações da interpertação do artista, da sua essência. Quando vemos uma fotografia ou vemos a instalação pronta, as pessoas que estão por trás do trabalho desaparecem, eclipsadas pelas suas próprias máscaras".
Então, indago-me: quantas coisas que vemos e acreditamos que são reais mas que, talvez, não passem de uma armação ilusória? Talvez a gente só chegue a contemplar as máscaras e não o âmago...
Apus ou a Ave do Paraíso, é uma pequena constelação situada no hemisfério celestial sul.
Apus é uma palavra grega que tem como significado 'sem patas', fazendo referência ao mito grego sobre pássaros que pareciam não ter os pés durante o vôo.
Outra relação com seu nome provém de Apus Indica, forma como se chama a Ave do Paraíso da Índia. Conta a história que estes lindos pássaros eram oferecidos aos europeus, todavia não sem antes que suas feias patas fossem cortadas.
Apesar de pequena e vista apenas do hemisfério austral, Apus revela sua singela e nobre beleza, tal qual a Ave do Paraíso - jogo de cores, de luz, de tons que enfeitam a esfera celeste, que abrilhantam o vazio e a escuridão.
Janela da Alma, documentário de João Jardim e Walter Carvalho, é para mim uma verdadeira obra prima.
Este trabalho é composto de 19 depoimentos de pessoas com problemas visuais. A ideia brotou da vivência do diretor João Jardim, da sua convicção de que a miopia teria influenciado de forma determinante na sua mudança de personalidade e mesmo em sua vida.
Mas o que supercialmente parece ser uma reflexão sobre o tema da visão, o ato de ver e a forma com que as pessoas que portam algum problema visual a encaram, transcede, vai além disso.
O filme tece profundas reflexões sobre a visão, transita na dimensão abstatra e mesmo poética, científica, socail e filosófica sobre a questão "o que é realmente enxergar?".
Será que não somos cegos? Vivemos em um estado de cegueira? Conforme aborda Saramago, traçando pontos com seu livro 'Ensaio sobre a Cegueira', já somos cegos, devido a total desordem que assombra o mundo.
Ou quem realmente pode afirmar que aquilo que vemos é real? E de quantos ângulos pode se ver um objeto e quantos deles contemplamos? E quem garante que nossos olhos físicos sejam realmente nossos verdadeiros olhos?
Todos esses motes são explanados ao longo dessa produção que conta com o depoimento de artistas, intelectuais e pessoas comuns da Europa e do Brasil. Tudo é embasado de um ponto de vista pessoal conectado à filosofia, à medicina, à biologia, à música e à literatura. Todas essas áreas interagindo na busca de repostas sobre o que é a visão.
Janela da Alma é um documentário fantástico, instigante, luminoso.
Pablo Neruda foi um importante cônsul e poeta chileno, uma das maiores vozes da literatura de língua castelhana do século XX.
Neruda nasceu em Parral, filho de um operário ferroário (José del Carmen Reyes Morales) e de uma professora primária (Rosa Basoalto Opazo), morta quando Nerudo tinha apenas um mês de vida.
Pablo Neruda é na verdade o pseudônimo de Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto, que foi adotado por esse em sua adolescência , inspirado no escritor checo Jan Neruda. Pseudônimo que seria utilizado durante toda a sua trajetória vida e que, mais tarde, o tornaria seu nome legal após ação de modificação de nome civil.
Desde de muito jovem Neruda revelara seu talento: com apenas 17 anos, enquanto cursava pedagogia em francês na Universidade do Chile, Pablo Neruda obtém seu primeiro prêmio na festa de primava, com "A Canção de Festa", marcando assim o início de uma brilhante caminhada literária que, no ano seguinte, tornaria-se mais evidente com a publicação de ‘Crepusculário' e logo após com “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”,exaltando uma forte marca do modernismo.
Em 1927, Neruda dá início a sua carreira diplomática. Tal fato concede ao poeta uma nova visão de mundo a qual seria transportada a sua obra literária. As viagens de Neruda o permitiram conhecer inúmeras e importantes pessoas do universo cultural - em Buenos Aires, conheceu Garcia Lorca, e em Barcelona Rafael Alberti. A política na vida de Neruda também marca sua poética em duas vertentes: uma lírica, angustiada e apaixonada; outra com versos de cunho político e, em alguns momentos, com características épicas.
A obra lírica de Neruda é tingida por acentuada emoção e humanismo. Amor, mulheres, o mar, a esfera celeste, a natureza são muito presentes nos seus versos. Aliás, amor e mulheres são marcantes - poemas sensuais, transcendentes, instigantes, por vezes enigmáticos e reflexivos.
Neruda era não apenas poeta, era amante. As mulheres de sua vida contribuíram, inevitavelmente, com sua habilidade em tratar de temas românticos com tanta intimidade, de forma tão inflamada, até a exaustão. Sua escrita é plena de imagens vívidas, sensoriais, táteis.
A metáfora, foi a figura de linguagem mais utilizada em sua obra - Neruda era um mestre em construção de metáforas.
No ano de 1971, seu livro autobiográfico 'Confesso que Vivi' foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.
"... Deixa que o vento corra, coroado de espumas, que me chame e me busque galopando na sombra, enquanto eu, mergulhado nos teus imensos olhos, nesta noite imensa, descansarei, meu amor..."
No mesmo ano que Neruda consquista o Nobel, também lhe é conferido o Prêmio Lênin da Paz.
A obra completa de Pablo Neruda reúne mais de 40 livros, escritos entre 1923 e 1973.
Poema XLIV
Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.